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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

18.06.22

Vitórias morais ou sacrifícios inúteis


Luís Alves de Fraga

 

Hoje, 17 de Junho, se não me enganei nas contas, passa o 114.º dia de guerra na Ucrânia contra a Rússia, que lhe invadiu o território. Não vou discutir as razões da iniciativa russa, pois ficar-me-ei pela análise possível do pior tipo de perdas no conflito: as mortes de ambos os lados.

 

Falar de baixas em combate é, de há muito tempo, um tema escaldante e escorregadio, porque estamos sempre no domínio do provável e nunca no da realidade. Os governos e os estados-maiores escondem, subvertem e aumentam ou reduzem os números para não dar, durante o desenrolar do conflito, indicações ao inimigo quanto ao seu potencial humano perdido e não desmoralizar o que resta da tropa combatente, por conseguinte, neste momento, atirar números para o ar é um jogo de incertezas, no qual me proponho entrar com base numa pequena pesquisa que fiz em sítios da Internet, um pouco ao acaso, nacionais (poucos) e brasileiros (o Brasil está longe e quase nada ligado ao que se passa no Leste da Europa). Vejamos.

 

O jornal brasileiro Estado de Minas, em 14 de Abril, dizia que, segundo a ONU, teriam morrido 4 450 civis na Ucrânia e que, segundo informações deste último país, teriam morrido, até àquele momento, 19 600 soldados russos contra os 1 351, declarados pela Rússia até 25 de Março. Fonte ucraniana estimava que, até ao dia 14 de Abril, teriam morrido 14 000 soldados em defesa da sua pátria. Por outro lado, o mesmo órgão de comunicação social, dizia que tinham sido massacrados pelas tropas russas ‒ segundo números confirmáveis ‒ 700 civis, embora outras fontes não oficiais falassem em 20 000 ou 22 000.

Como se vê, as disparidades são significativas e os números parecem estar exagerados, para cima ou para baixo, conforme o lado a que respeitam. Curioso é que, no dia 4 de Abril, ou seja, dez dias antes da divulgação dos dados anteriores, a BBC News garantia que o 331.º Regimentos de Pára-quedistas da Rússia, uma unidade de elite, tinha sido desbaratada, morrendo o coronel que a comandava e mais 39 militares.

O jornal português Observador, no dia 10 de Junho, segundo fonte ucraniana, dizia terem morrido até àquela data 32 000 militares russos. Curiosamente, o jornal Exame, a 17 de Maio, confirmava o número oficial dado pelo governo russo de 1 351 militares mortos em campanha, mas, Kiev já afirmava que tinham morrido em combate 27 000 russos em sete semanas. Já, no dia 6 de Maio, o sítio Mediazona, pró-russo, concluía que haviam falecido 2 099 militares russos até àquela data. Mas, no Exame já citado, informava-se que o Ministério da Defesa britânico havia calculado que, até 17 de Maio, teriam sido mortos 12 500 militares russos.

Recentemente o presidente Zelensky não teve pejo em afirmar que as baixas diárias entre as forças militares da Ucrânia andavam na média de 100 soldados o que, por generalização, se utilizarmos até ao dia de hoje, teremos qualquer coisa como 11 400 desde o início do conflito armado, número que, pessoalmente, acho muito reduzido em contraponto daqueles que são indicados para a Rússia.

 

Sem nenhuma base de segurança, mas partindo do que acabei de expor, não me incomoda nada calcular que as baixas por morte em cada um dos exércitos já ultrapassou a fasquia dos dez mil homens e caminha para um número que, por cima do anterior, rondará mais dois ou três mil. Em suma, esta guerra, em ambos os lados, ceifou, até agora, quase de certeza, 24 000 militares, vidas que desfizeram futuros sem preço e deixaram recordações irrepetíveis.

Se internacionalmente não lançarem mais achas para esta fogueira, incitando os contendores a matarem-se até ao último homem, admito que Putin, se tiver ou lhe for oferecida uma razão, porá fim ao conflito para evitar o desprestígio interno ‒ esta coisa de dar filhos, pais, maridos à Pátria também tem um limite e a minha geração de jovens capitães bem o sabe e bem o sentiu ‒ mas torna-se imperioso que Zelensky ceda naquilo que, afinal, foi a razão da guerra: reconhecer a separação territorial e a independência da zona russófona da Ucrânia, aceitar a desmilitarização do país e negociar com cautela o retorno à tutela ucraniana de uma parte do litoral já conquistado pela Rússia. Entretanto, o Ocidente, com os EUA à frente, terá de aliviar as sanções económicas à Rússia e a UE terá de saber negociar com Washington e Moscovo de modo a envolver, parcelarmente, a Rússia na esfera dos parceiros económicos da Europa.

Se estes objectivos, ou outros semelhantes, não forem as baliza de uma paz honrosa para todas as partes, é certo e sabido que a luta vai continuar com declarado prejuízo para todos os actores activos e passivos deste conflito e, no fim, quando, por uma qualquer ocorrência política, se chegar ao ponto de alguém poder travar a mortandade haverá somente vitórias morais e sacrifícios inúteis.

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