Visão de embaixador
Ontem à noite vi grande parte do programa “Fronteiras XXI”, cujo painel incluía o inefável Nuno Severiano Teixeira (que, para além de outras qualidades consegue falar de tudo, mesmo que de nada saiba) e o embaixador já aposentado Fernando d’Oliveira Neves. Debatia-se o tema Putin deu um novo propósito à União Europeia?
De Londres, falava o embaixador da União Europeia no Reino Unido João Vale de Almeida, e entrou no programa, também, a ex-secretária de Estado da Defesa Nacional Ana Santos Pinto.
A única voz dissonante da verdade que se vai tornando oficial foi a do embaixador Fernando Neves que, com todas as cautelas que uma longa experiência diplomática lhe deram, colocou a questão de a invasão da Ucrânia ‒ que todos nós lamentamos, porque uma guerra faz mortos e feridos de ambos os lados em confronto ‒ não tanto como uma agressão ao Direito Internacional, que teve o cuidado de realçar ser um direito do mais forte, mas como uma consequência de uma política ofensiva (não o disse assim, mas o sentido foi este) dos EUA, que querem ver reduzida a capacidade da Rússia, mantendo para si o estatuto de superpotência. Para ele a política não é linear como, por exemplo, para Severiano Teixeira, que vê de um lado os bons e do outro os maus.
Fernando Neves, com aquele jeito dos diplomatas, foi dando a entender que os Estados nascidos da antiga Rússia não deveriam ser aceites no âmbito da UE, porque trazem para dentro dela problemáticas que não fazem parte da História da Europa. Já o presunçoso Severiano Teixeira defendeu que todo o Estado soberano pode e deve escolher o seu caminho, as suas alianças, os seus entendimentos.
Ora, quando penso nisto, vejo-me obrigado a perspectivar as relações de Estado à dimensão das relações interpessoais, coisa que corresponde a minimizar ridiculamente a complexidade da vida internacional.
Afirmações deste género, ou que apontam neste sentido, são risíveis, porque roçam a perspectiva do homem vulgar, do homem da rua, cuja formação intelectual resulta da vaga leitura dos jornais e da audição-visão das televisões, que nos vendem as matérias informativas embrulhadas segundo um pacote pré-estabelecido.
A minha revolta contra a posição dos outros três intervenientes no debate não resulta de estar em desacordo com os horrores da guerra, desta guerra. O invasor pode chamar-se Putin, Francisco, Rodolfo, Afonso, Miguel, Bidend ou Trump, porque a minha condenação não recai no acto de invadir. Por amor de Deus, a História do Mundo está carregada de invasões, de guerras, de mortos, de torturas. A minha revolta resulta da forma simplista como me querem fazer acreditar na culpabilização do presidente russo, seja ele quem for.
Estamos a desenterrar fantasmas que acabaram em 1945 ou mais tarde, ao concluir-se que Estaline procedeu como Hitler. Mas esquecemos que a nossa civilização foi construída sobre o terror exercido por reis, ministros, presidentes e continua na mesma, só que disfarçada, camuflada e inventada segundo modelos modernos de comunicação.
Nós, europeus, estamos habituados a ver a guerra lá longe, em terras que quase nada nos dizem ‒ tal como um argentino ou um australiano verá esta guerra na Europa ‒ e o que nos alucina é esta proximidade e, por isso, em vez de apagarmos o fogo através da diplomacia e de desmascarar interesses envolvidos, escondemo-los e ateamos a guerra, mandando armamento para a Ucrânia na esperança de vermos a Rússia humilhada e diminuída no seu aparente poderio militar.
Estamos a ajudar, exactamente, quem?
Não se me dê como resposta, os ucranianos, pois é tão evidente que nem merece comentário, por isso tenho de repetir a pergunta: estamos a ajudar, exactamente, quem?
Claro que não é a nós que nos estamos a ajudar! A Rússia não se atreve atacar qualquer Estado que pertença à NATO!
A resposta salta-me imperiosa:
‒ Estamos, objectivamente, a ajudar os EUA na sua política globalizante e na sua tentativa imperialista de arredar a Rússia do caminho da concorrência militar e política.
Assim, realmente, Putin deu um novo propósito à UE: subalternizar-se aos EUA, com medo de perder a protecção militar norte-americana, tal como se ainda houvesse URSS e a possibilidade de a Rússia ameaçar a Europa. Tudo isso é do passado! Deixemos de usar esqueletos para imaginar o futuro do mundo e, em especial, o da Europa.
