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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

15.05.24

Uma outra História


Luís Alves de Fraga

 

Mas, afinal, quem foi Jesus? Ele existiu, ao menos?

Não me diga o leitor que nunca foi assaltado por estas e outras perguntas do mesmo cariz. Pode não ter sido, por duas razões que me ocorrem no momento: ou é um ser com uma fé em Cristo, daquelas que move montanhas, ou é uma pessoa que jamais perdeu tempo com questões religiosas. Se calhar há ainda outras hipóteses: ser hinduísta, ser judeu, ser maometano, ser panteísta ou, pura e simplesmente, não gostar de pensar em coisas que não lhe rendam dinheiro. É que o dinheiro é ou pode ser, também, um deus para muita gente… Conheço alguns assim, cheios de sorrisos e salamaleques, mas que através de nós só vêem cifrões.

 

Vamos, então, pegar no tema que, linhas acima, deixei em aberto.

Há 2024 anos estava a Judeia ocupada pelos Romanos e não há, segundo me parece, escritor, cronista ou historiador algum, desse tempo, que tenha feito referência à vida de um homem que houvesse posto em causa as autoridades judaicas quanto mais as romanas ou que se tenha intitulado rei dos judeus ou que tenha alterado a ordem local. Nada. Absolutamente nada. Todavia, sessenta e quatro anos depois, no reinado de Nero, já se houve falar dos cristãos, aquando do incêndio de Roma, pois, segundo vários historiadores, teria sido para os matar que o imperador mandara pegar fogo a dois terços da cidade.

Atentemos neste pormenor super curioso: sessenta e quatro (64) anos depois do nascimento de Jesus, na cidade de Belém, havia cristãos a serem queimados vivos em Roma e sessenta e quatro anos antes ninguém reportou o nascimento de Jesus e, menos ainda, trinta e três anos antes referiu a sua morte. Estranho, não é? Isto para um historiador dá matéria para pensar, pois, atendendo à distância geográfica entre Roma e Jerusalém (cidade onde se diz que Jesus foi crucificado, aos trinta e três anos de idade) e ao tempo que passou sobre estes acontecimentos (não seriam de estranhar nos dias que correm graças às tecnologias de comunicação) podemos considerá-los como um movimento de massas. E foi-o, sem dúvida.

 

Que terá feito de Jesus uma figura tão ímpar e, acima de tudo, tão capaz de dar origem ao cristianismo (convém saber que Cristo não é o apelido de Jesus, mas que quer dizer Messias, aquele que há-de vir para anunciar a boa nova)?

Pois bem, do que sabemos através do Novo Testamento (em oposição ao Velho, que não está longe da Torá judaica), Jesus teve uma finalidade na vida: acabar com o pecado original, que é exaltado no livro Génesis do Velho Testamento e da Torá, o qual mais não é do que a vingativa expulsão de Adão e de Eva do Paraíso por terem desobedecido às ordens de Deus. É, historicamente, um disruptor do sistema hebraico de olhar e viver a vida. É, por conseguinte, um judeu que tem como finalidade reformular a interpretação teológica da vida do Homem e do pecado, dando de Deus uma imagem de bondade, arrasando a de um Deus vingativo, cruel e castigador.

Mas, até aqui, estou a tentar fazer uma explicação de matriz histórica do acto fundamental de Jesus, contudo, para se perceber a figura do autor deste corte tão profundo no judaísmo, tenho de abandonar a posição de historiador e tentar fazer a análise num plano teológico, embora careça de conhecimentos suficientemente seguros para levar a cabo tal transição.

 

Os Evangelhos reconhecidos pela Igreja Católica dão-nos conta do nascimento de Jesus por obra e graça do Espírito Santo, partindo da gravidez de Maria, uma virgem casada com um carpinteiro de nome José e que, parece, seria bastante mais velho do que ela. Desta gravidez tomou Maria conhecimento, através do Anjo Gabriel, da vontade de Deus fazer reproduzir Jesus no seu ventre, que era, por conseguinte, filho do Criador único.

Maria teve o Filho em Belém, todavia, terá crescido até à idade de trinta anos em Nazaré.

Quando iniciou a sua vida pública, Jesus terá assumido a sua paternidade divina, e criando uma dualidade ou duplicidade entre Ele próprio o seu Pai, que era Deus, vindo, depois, o Espírito Santo como a trindade: Deus Pai, Deus Filho e o Espírito Santo. Mas o sentido da sua vida pública é rigorosamente a do corte com a velha tradição teológica judaica, porque Jesus tem consciência da afronta que está a fazer ao judaísmo e sabe que acabará morto para cumprir a vontade do Pai: remir o pecado original ou seja dar de Deus uma outra versão, a de um Deus de perdão e todos os Evangelhos referem que, porque se arrependeu na hora da morte, um dos ladrões que com Ele foi crucificado ouviu dos lábios de Jesus a certeza de que nesse mesmo dia estaria com Ele junto do Deus Pai.

 

Esta nova forma de viver a religião judaica tinha de ser condenada pelos próprios judeus, mas foi a ideia de um Deus de compaixão, perdão, de amor e não de revolta e castigador (veja a parábola do filho pródigo ou o episódio do centurião que se manifesta indigno de Jesus entrar em sua casa) que o Deus Filho quis que fosse divulgada pela Terra.

E foi, pois de Corínto a Efeso, do Norte de África à península itálica rapidamente o cristianismo, como doutrina e religião de Jesus, espalhou-se como fogo em palha seca. Teologicamente, não foi por acaso… Foi porque os apóstolos (os primeiros seguidores de Jesus) difundiram uma Trindade Divina que perdoava e, deste modo, a patrística (as primeira interpretações filosóficas e teológicas da nova Igreja) soube interpretar a vida de Jesus tal como, depois de uma Igreja de Roma, na Idade Média, ter recriado um Deus castigador e capaz de separar as almas em boas, más e assim-assim, chegamos a um tempo em que um Papa, depois de outros lhe terem aberto várias “portas” e “janelas” desde o pontificado de João XXIII, clama, tal como Jesus clamou, que o amor do Pai a todos aceita no Seu Reino desde que sejam capazes de se arrepender e afirmar que não são dignos que Jesus entre na sua morada, porque Ele entra e perdoa.

Claro que a aceitação teológica da vinda de Jesus à Terra só a está em condições de a compreender quem for capaz de não pretender explicar a Santíssima Trindade ou o milagre milenarmente repetido de um pedaço de pão e um pouco de vinho se transformar em corpo e sangue de Jesus, porque Ele pediu que repetisse a consagração que Ele mesmo ensinou na última ceia: fazei-o em nome de mim.

A parte teológica assenta em quem tem fé e não naqueles que querem racionalizar aquilo que entra no domínio do incompreensível.