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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

23.06.22

Uma guerra de posição ou de guerrilha?


Luís Alves de Fraga

 

Na Ucrânia a guerra continua, embora os russos, parece, estejam a conseguir avançar com algum significado no território que pretendem conquistar. Tudo se passa com uma certa lentidão, para aqueles que julgavam (e nesse número estou incluindo-me) ir durar muito pouco tempo a campanha.

Tentemos perceber essa demora no avanço russo.

 

Primeiro do que tudo, há que explicar a razão pela qual a guerra não adquiriu a sua feição mais tradicional, definida pelo fogo e movimento.

Desconheço em absoluto a táctica do exército ucraniano, mas tudo me faz pensar que o comando optou por estabelecer princípios de defesa posicional, ou seja, deixar avançar o inimigo até à distância do fogo das armas disponíveis, sejam pesadas sejam ligeiras; depois, em consequência do avanço russo, a defesa dever-se-á fazer por sucessivos recuos até se chegar ao nível do combate de rua, de prédio em prédio.

Fundamento a minha opinião no facto de os russos terem optado por executar bombardeamentos massivos antes de fazerem avançar a sua infantaria para ocupar o terreno, pois, se o fizessem, estavam a condenar muitos homens a uma morte inglória e sem resultados práticos. A destruição das primeiras linhas defensivas, seguida da destruição de todas as edificações donde seja possível o ataque isolado, tornou-se uma táctica imperativa para o comando russo. Assim, aquilo que nos impressiona nas emissões de televisão e faz parte de uma campanha de descrédito dos russos, provocando repulsa no Ocidente, resulta, afinal de uma opção do comando ucraniano, já que, se se fortificasse em campo raso e desse batalha, obrigava a um outro tipo de operação por parte do invasor. Vou tentar dizer o mesmo, mas de outra maneira.

 

Um país ‒ quase todos os da Europa Central ‒ quando espera ou prevê a ocorrência de invasão das suas fronteiras escolhe edificar linhas de defesa nas zonas ou regiões onde seja mais fácil ao inimigo progredir; deste modo, tem-se quase sempre a certeza de é ali que se vai efectuar a batalha (por vezes, o inimigo escolhe o caminho mais difícil e imprevisto ‒ caso dos alemães, no planalto das Ardenas, na 2.ª Guerra Mundial, em vez de atacar em direcção à linha Maginot, como os franceses admitiam que iria acontecer).

Na Ucrânia não existia nenhuma linha defensiva, prevendo um ataque russo. Além do mais, o país é constituído por uma grande planície por onde pode livremente avançar o inimigo, escolhendo qualquer itinerário que o leve ao objectivo. Nestas circunstâncias, as cidades mais importantes tornaram-se nos bastiões de defesa, daí que a táctica de ataque corresponda ao que antes descrevi, impondo-se a destruição quase total de todas edificações, enquanto se souber que por lá pode haver resistência. Por outro lado, as populações civis ucranianas, enquanto estão nas cidades atacadas, podem constituir um excelente alibi para impedir o inimigo de as destruir; nestas circunstâncias, o comando russo (podia ser americano, chinês ou francês) tem de ultrapassar este impedimento moral e agir com liberdade e frieza, se pretende chegar ao objectivo. Tudo isto foge aos preceitos da guerra convencional e, por conseguinte, ao que se encontra estatuído nos Tratados da Guerra ou Convenções.

 

Claro que, do ponto de vista ucraniano, os russos deviam expor a sua infantaria e os seus carros de combate para que lhes fosse (aos ucranianos) mais fácil matá-la e destrui-los. É deste modo que o actual conflito tende para uma guerra de posição e de desgaste ao invés de uma guerra de movimento. Assim, as grandes batalhas fazem-se à custa da artilharia e de toda a espécie de bombardeamento possível; o avanço ocorre quando se sabe que a oposição inimiga é insignificante.

 

Em seguida entram os russos nas cidades destruídas e convivem com os poucos sobreviventes dispostos a ficar. Mas será exactamente assim que se vai passar no futuro, seja ele muito próximo ou distante?

Julgo que não. Por muito que os russos persigam os ucranianos insubmissos, haverá sempre a tendência para manter nos territórios ocupados uma réstia de insubmissão, que constituirá o núcleo central de uma futura guerra de guerrilha alimentada pela Ucrânia não ocupada. E será isto um futuro? E será tal perspectiva digna de um país da União Europeia? Um país dividido, que se diz incompleto, poderá candidatar-se e ser aceite na UE? E, se for aceite, que UE será esta?

 

Como se vê, a guerrilha não será feita só de armas na mão, mas envolvendo uma série de Estados que alimentaram e preservaram entre si, durante cerca de setenta anos, o espírito de Jean Monnet e dos pais fundadores, que buscavam a paz, através do diálogo democrático, e o fim de todas as guerras entre os Estados europeus.

Para onde nos está a levar Bruxelas? Ou, será que não devo dizer, para onde nos está a levar, a nós europeus, esta subserviência aos planos estratégicos dos EUA?