Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

27.06.22

Uma estratégia de Putin


Luís Alves de Fraga

 

Há exercícios que devem ser feitos para poder compreender o que pensa ou como pode pensar o adversário. Claro que nem toda a gente está capaz de entender esta manobra, que foi usada com muita frequência pelo estado-maior alemão, tanto na primeira como na segunda guerra mundial (a biografia do comandante inimigo, bem como o seu modo de actuar em campanha eram estudados até ao último pormenor de modo a poder prever a sua reacção face a qualquer movimentação futura), pois se fundamenta num mero jogo de probabilidades.

 

Hoje, sem a profundidade do que se faz num estado-maior militar, vou deixar-vos uma mera hipótese, que me assaltou, para tentar perceber o conflito que ocorre entre a Rússia e a Ucrânia. Vou tentar perceber a estratégia de Putin, colocando-me, tanto quanto me é possível, na cabeça de um antigo agente da KGB, de um primeiro-ministro de uma Rússia em desordem por causa da implosão da URSS e, finalmente, de um presidente da Federação Russa reduzida a uma entidade política sem grande peso nas decisões globais, as quais estão completamente dominadas pelos EUA, vislumbrando-se lá longe um rival, que nasce cheio de pujança: a China.

paises-OTAN-1094496428.jpg

Perante a descarada tentativa da Ucrânia se juntar à OTAN, olhando o mapa, Putin vê o imenso cerco que, a Ocidente, está a ser feito à Rússia, se se olhar o mundo partindo de uma visão eurocêntrica, porque, se o olhar, pensando que a Terra não é plana, vê que o cerco está fechado no Oriente, pelo Estado do Alasca, pelo Canadá e Gronelândia. Não pintado a azul só lhe fica, na Eurásia, o Médio Oriente com todas as suas problemáticas e o Oriente muçulmanizado, a Índia e a China. Aquilo que poderia fazer da Rússia um Estado ainda ocidental, não subjugado pela OTAN, era a manutenção de um bom entendimento com a Bielorrússia e a Ucrânia. Ora, se este último país se bandear para o lado da Aliança, a Rússia fica, cada vez, mais vulnerável ao cerco de um Ocidente sujeito ao chapéu-de-chuva americano e isso corresponde a uma ameaça, porque a unipolaridade dos EUA é, ainda, uma realidade, enquanto a China não se afirmar uma concorrente comercial e militar de Washington. Quando tal momento chegar, Pequim vai construir o seu próprio tabuleiro de influência e apoios militares no Oriente, deixando a Rússia encravada entre uma OTAN americanizada e um Extremo Oriente achinesado.

A consequência de um tal movimento resultará num cerco ao maior país do mundo, cujas saídas para o Atlântico, bem como para o Mediterrâneo, são muito limitadas já que para o Pacífico ficarão limitadas pela China, facto que tornará a Rússia refém dos EUA (via OTAN) e da China (via alianças a estabelecer).

Face a um cenário desta natureza o que Putin podia fazer para evitar a entrada da Ucrânia na Aliança, gerando uma redução do espaço estratégico da Rússia perante a eventualidade de um ataque pelo flanco Sul? Resposta imediata: neutralizar essa ameaça usando de meios dissuasivos (que não resultaram) e passar à ofensiva antes que o Art.º 5.º da OTAN se tornasse uma realidade naquele Estado. Foi o que fez. Mas qual o objectivo desse ataque? Como se vê, agora, ocupar a parte Leste onde os russófonos são em maior número e ocupar uma parte significativa da costa do Mar Negro para ganhar maior liberdade de acção naval naquele mar interior, estendendo, deste modo, a sua esfera de defesa fronteiriça um pouco mais longe e em maior extensão (algo que é a estratégia dos EUA quando procuram espalhar bases muito longe da sua fronteira marítima).

 

Depois desta análise com base num raciocínio hipotético, deixo o mapa para se poder ver e perceber que a invasão da Ucrânia foi o resultado de uma necessidade de defesa e não um ataque expansivo… Quem estava (e está) a procurar expandir-se era a OTAN, que se vê agora ampliada com a adesão da Finlândia e da Suécia (que representa, afinal, um aperto do cerco à Rússia pelo Norte, gerando como que uma compensação: se a Rússia amplia a defesa a Sul, a OTAN reduz a distância a Norte).

 

Será que fui suficientemente claro para os meus leitores compreenderem que, afinal, a estratégia é uma forma de resposta dialéctica, tal como se estivéssemos frente a um tabuleiro de xadrez?