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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

16.02.20

Um mundo de horrores


Luís Alves de Fraga

 

Acordei preocupado. Preocupado com a importância que estamos a dar a pequenas coisas das nossas vidas e a desleixar outras de imensas dimensões.

Vou tentar ser mais explícito.

 

Bruxelas impõe a baixa das taxas de poluição. Acho bem. Mas, ao mesmo tempo, incentiva a concorrência livre entre produtores, a entrega a companhias privadas de todos os sectores detidos pelos Estados de modo a evitar controlos de mercados.

Ora, se pensarmos um pouco, a situação mundial chegou onde estamos por causa do desejo de produzir cada vez mais para, cada vez mais, se consumir. A nossa (hoje global) economia só se sustenta porque o consumo aumenta exponencialmente.

Por acaso, os meus leitores imaginam o que aconteceria se, de um momento para o outro, deixássemos de comprar toda a tralha que nos é imposta pela publicidade, a moda e mais os restantes mecanismos de gerar desejos consumistas?

As falências suceder-se-iam em catadupa. Imaginem que não mudávamos de telemóvel quando sai um modelo novo e nos fazem sentir ridículos, porque usamos o da geração anterior; se nos estivéssemos nas tintas para as cores e os modelos da moda de vestuário; se nos aguentássemos com o velho carro com dez ou quinze anos de idade; se substituíssemos os GPS dos telemóveis pelos velhos mapas das estradas; se não aceitássemos usar lenços, guardanapos e toalhas de papel e os trocássemos pelos de pano, laváveis e reutilizáveis; se, enfim, fizéssemos um grande boicote ao consumo desnecessário. O nosso mundo ruía tal como o conhecemos e os grandes impérios comerciais desapareciam.

 

É nesta recusa de tanta modernidade e de tão exagerado consumo, só importante porque se dá mais valor ao parecer do que ao ter, como se a vida acabasse amanhã e nós perdêssemos o direito a estar vivos se não esgotarmos todas as possibilidades, é nesta recusa que podemos perceber quanto este mundo de horrores, que nos assusta, com mudanças climáticas e poluição inadmissível, é ele mesmo contraditório.

Tão contraditório que sentimos, nesta década e meia passada, uma desconformidade entre a democracia idealizada e a democracia praticada. Tão contraditório que permite o populismo a rondar uma outra ou outras formas de fascismo. Tão contraditório que clamamos por soluções políticas ainda não inventadas, pois tudo isto é novo, levando-nos a sentir que estamos à beira da catástrofe, seja ambiental, seja social, seja política. E muitos, mas mesmo muitos, de nós, continuamos a ouvir a música, a orquestra, quando este Titanic, cujo nome real é Terra, se desfaz sem se conseguir articular as pontas soltas de uma modelo económico, social e político em vias de colapso.

 

Tenho ou não tenho razões para estar preocupado, para dormir em sobressalto?