Um Homem e o mundo em descalabro
Bastava a pandemia que vivemos para o mundo já estar em descalabro, mas não é disso que venho hoje falar-vos, nem talvez de política, embora tudo o que disser possa ser considerado política.
Os meus Amigos e leitores já repararam ‒ e não podem negar ‒ que o modo de sentirmos o mundo de hoje é totalmente diferente daquela percepção que tínhamos nos anos de 1970, e, talvez, no começo da década seguinte?
A disparidade de hoje nada tem a ver com a idade nem com o passar dos anos! Acreditem que não. Essa coisa de se dizer naquele tempo, não faz parte do meu raciocínio que, admito, está solto de tal preconceito. Olhando objectivamente para esse passado e para os dias de hoje, de comum, parece-me, só temos a importância global da força militar dos EUA a impor-se como se daquele país brotassem os melhores exemplos da democracia. No resto, ainda existia a URSS e a pressão entre blocos antagónicos, uma China à procura de encontrar um caminho que a pudesse colocar onde hoje se encontra, uma África em convulsão por razões próprias ou instiladas de fora, um Médio Oriente a querer afirmar-se como dono do futuro, porque este assentava no petróleo, um Chile, que em 11 de Setembro de 1973, virou na mais bárbara e assassina ditadura depois da 2.ª Guerra Mundial, um Brasil dominado pelos generais do Exército, uma Europa onde persistiam as duas últimas ditaduras com mais de três dezenas de anos, uma cidade de Berlim que continuava dividida por um muro.
Olhando mais profundamente para esses anos, temos, através do economista americano John Kenneth Galbraith, a obra que melhor condena o capitalismo liberal herdado do século XIX: o livro ‒ O Novo Estado Industrial ‒ que põe a nu a forma mais impiedosa de exploração da mão-de-obra até essa data: as empresas multinacionais que, ao longo dos anos seguintes à 2.ª Guerra Mundial, tornaram o capital mais apátrida, através da procura da maior exploração da miséria.
Esses anos, que nos pareceram, na época, horríveis, mas onde ainda havia réstias de esperança na democracia e na economia, são pálidas amostras dos horrores de hoje.
Um hoje que assenta no capitalismo global e na exploração global. Um globalismo sem rosto, sem imagem, para além da necessidade de consumir até à exaustão e de produzir a preços altamente competitivos longe, geograficamente muito longe, dos locais de consumo. Um globalismo que, não tendo inventado os paraísos fiscais, goza das vantagens da acumulação de dinheiro como se de um bem físico se tratasse. O dinheiro é só um pedaço de papel, que arde ou se rasga ou se destrói com imensa facilidade; o dinheiro não se compara aos diamantes, ao ouro, às obras de arte, aos edifícios, às mansões de antigamente; o dinheiro é só um meio de aquisição, mas, no presente é ele que se esconde, atrás de várias faces e nacionalidades, nas empresas offshore.
E é este o mundo que nasceu da queda do bloco de Leste, o qual, por muita ameaça militar que contivesse, limitava a liberdade e a libertinagem do capital e dos capitalistas.
Em Roma, dentro de um minúsculo Estado, que existe na cidade dos Césares, há um homem vestido de branco, um velho, com um ar bonacheirão, e um sorriso cativante, que manqueja, e rejeita usar sapatos de excelente marca, bastando-lhe os pretos, de cabedal e já um pouco cambados, o qual, independentemente das funções que aceitou exercer perante o mundo e uma numerosa comunidade humana, diz coisas como estas: «É tempo de reconstruir uma nova comunidade fraterna, apoiando-a numa base possante que consiga suportar a todos, crentes e não crentes».
Jorge Mário Bergoglio optou, para a sua função episcopal, em Roma ‒ daí ser Papa ‒, o nome do fundador da mais pobre comunidade cristã de todos os tempos: Francisco, que foi de Assis. Ao fazê-lo, terá admitido que bastantes dos seus pares compreenderiam a razão profunda da escolha: é que o santo, que chamava irmãos aos animais ‒ um ecologista no seu tempo ‒, não aceitava que a sua ordem religiosa, a dos franciscanos, construísse um templo, uma igreja simples, de pedra sobre pedra, porque continuavam a existir pobres que não tinham onde se abrigar para além da abóbada celeste nas noites frias e nos dias de escaldante calor.
E Bergoglio ‒ o Papa Francisco ‒ não podendo radicalizar-se como o seu patrono quanto aos bens materiais da Igreja Católica (ainda lhe acontecia alguma coisa grave, que lhe inutilizava o esforço) fá-lo ao nível do entendimento teológico dos juízos da Cúria Romana e das dioceses que compõem a Igreja no mundo. E fá-lo de uma maneira simples através de uma linguagem compreensível para todos quantos saibam ler nas linhas e nas entrelinhas: «Podemos recomeçar a partir da descoberta da fragilidade comum, que a dureza da pandemia nos atirou à cara. Devido à miséria e à exploração dos seres humanos, em algumas zonas do planeta a precariedade da existência era já há muito o «pão nosso de cada dia». Em contrapartida, noutras regiões do mundo, a certeza de que os poderes humanos, técnicos e científicos eram imbatíveis revelou-se incontornável. Agora é ainda mais evidente que, tanto no bem como no mal, as consequências das nossas ações recaem sempre e também sobre o próximo. Por isso a solidariedade de facto entre todos nós, se se tornar uma escolha global e definitiva, é o caminho para a salvação, para transcender esta época ameaçadora: a vida é sempre com os outros, e a fraternidade é imprescindível, porque sozinhos, mais cedo ou mais tarde, desabamos. Se tomarmos conta uns dos outros, todos poderemos viver melhor.» (do livro Deus e o mundo futuro p. 16 e 21-22).
Estas palavras, ditas por um jesuíta, que se tornou franciscano, com suavidade, mas firmeza, chamam a atenção para as diferenças materiais entre a humanidade e a necessidade que temos de reformular esta democracia global, este liberalismo cruel e, começando tudo de novo, tudo do zero, encontrarmos a democracia justa. A democracia dos Homens que Bergoglio não despreza e, até enaltece.
Será que Francisco, o Papa, é comunista, socialista ou simplesmente um Homem justo?
