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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

04.11.18

Torre e Espada – Milhões e militares


Luís Alves de Fraga

 

Acabei, há poucas horas, de assistir, através da emissão televisiva, ao grandioso desfile “militar” na Avenida da Liberdade, em Lisboa. Comemorou-se o centenário do Armistício, uma semana antes da data em que aconteceu. Razões imperiosas levaram a que se adiantasse o acontecimento: o nosso Presidente da República vai estar, no dia 11, em Paris para acompanhar a evocação internacional.

 

Muita coisa poderia dizer sobre o que vi, mas vou concentrar-me em dois ou três aspectos, para não ser longo nem incomodar os meus leitores.

 

Antes do mais, no meu entender, há que explicar a inclusão da Guarda Nacional Republicana (GNR) e da Polícia no desfile, que devia ser militar (a Polícia é uma força de segurança civil), já que a primeira teve um papel muito reduzido no conflito e a segunda não teve papel absolutamente nenhum.

Se quem esteve atento à emissão televisiva tomou em devida nota os efectivos mencionados, poderá ter feito as contas e verificado que, AO TODO, a Armada, o Exército e a Força Aérea não têm ao serviço vinte e quatro mil elementos (homens e mulheres), mas a POLÍCIA (força civil e de segurança interna) tem à volta de vinte e um mil efectivos! Falta, ainda a GNR…

Assim, se o desfile se limitasse a ser só feito por militares dos ramos realmente combatentes na Grande Guerra, seria um “desfilinho” ou uma “paradinha”! Para lhe dar a grandeza dos quatro mil que teve, houve que juntar tudo o que usa arma para segurança. A tal situação nos reduziram as “Jotas” com a sua oposição ao serviço militar obrigatório e a tal nos tem reduzido a vontade política dos Governos democráticos, com medo das Forças Armadas.

 

Mas o Presidente quis salvar a face dos Exércitos de Terra, Mar e Ar, numa altura em que tão vilipendiados têm sido e, como bom político que é, “arrefinfou-lhes”, nos estandartes dos respectivos Estados-Maiores, as insígnias da Ordem Militar da Torre e Espada do Valor Lealdades e Mérito. Ficou-lhe bem e as Forças Armadas agradecem. As forças de segurança ficaram a “chuchar no dedo”, como convém e se justifica, porque, “com papas e bolos se enganam os tolos”!

 

Depois, depois foi a desgraça dos repórteres da televisão, que “não davam uma para a caixa”, visto terem estudado muito mal as informações que poderiam ter colhido sobre a intervenção de Portugal na Grande Guerra. Safou-os, mas nem sempre bem, os oficiais destacados pelos ramos das Forças Armadas, que lá explicaram alguns pormenores do que foi a nossa participação no conflito. E, até notei, o oficial da Força Aérea lembrou-se da esquadrilha mandada para Moçambique. Haja Deus!

 

Na sequência do programa e já no telejornal veio à baila o soldado Milhões.

É sabido, tenho-me dedicado, há mais de duas dezenas de anos, ao estudo e pesquisa da participação na Grande Guerra. Fiz tese de doutoramento em História sobre o tema. Sempre me interroguei quanto ao real papel do soldado Milhais, designado por Milhões.

Não vos quero incomodar com longas leituras, todavia, sendo sintético, não desprezando a coragem do soldado Milhais, tenho para mim que ele foi, acima de tudo, um símbolo escolhido para criar o herói que faltava ao nível dos soldados combatentes, em La Lys, onde, a grande maioria – mais de seis mil –, foi feita prisioneira e uma minoria morreu em combate (quatrocentos e vinte e três).

 

É o Portugal dos mitos e das meias verdades.