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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

03.01.24

Todos somos iguais


Luís Alves de Fraga

 

Há muitos anos, era eu professor na universidade, fui abordado por um colega cuja filha frequentava as minhas aulas e, tendo reprovado na primeira época, ia repetir o exame em Setembro. Diga-se, em abono da verdade, sempre fui um professor exigente e pouco pródigo em notas altas. A mocita em questão era uma aluna de nove valores na minha bitola, daí a segunda época. O pai para além de professor era, em simultâneo, um dos administradores de uma das várias companhias de telecomunicações existentes na altura e, para “meter a cunha” argumentou que à filha, para ser licenciada só lhe faltava a minha cadeira que até era do terceiro ano quando o curso tinha quatro, para além de que já tinha garantido um lugar de secretária no conselho de administração da empresa onde o papá era um dos “manda-chuva”.

A minha resposta foi simples: «Ela que estude especialmente a matéria dada no segundo semestre… o resto depende do esforço que fizer».

A menina esfalfou-se o quanto a sua inteligência lhe permitia e as suas fracas capacidades de redacção a ajudavam. Fez o exame e a diferença para os anteriores era quase nenhuma… Na altura de lançar a nota na pauta olhei para o lado e, em vez de lhe dar o nove dei o dez. Que diabo, por causa da História da Cultura Portuguesa a mocita ia perder o emprego que o papá com tanto “custo” lhe arranjara?

No meio de tudo isto, a minha consciência ficou bastante mais tranquila, porque no currículo do curso havia cadeiras bem mais complexas do que a leccionada por mim e, para meu espanto, ela passara até com notas superiores ao meu mísero dez!

Conclusão: todos somos igualmente venais, dependendo o grau somente do tipo de favor que fazemos ou da recompensa recebida que, no meu caso, foi nenhuma.

 

E vem esta minha confissão a propósito da crise aberta pela queda do Governo. Estamos como estamos por causa de, ainda, supostas venalidades de alguns membros do Executivo, ficando pendente sobre António Costa uma dúvida, até ao momento, não tornada pública.

O que neste tempo decorrido me atormenta não são as supostas e nada provadas venalidades dos ministros… Não! O que me atormenta é que todos estejam apostados em fazer de mim parvo, coisa que julgo ter sido por vontade própria em momentos que me eram convenientes para a minha sobrevivência. Vejamos os meus fundamentos que deviam ser, afinal, o de todos os cidadãos deste país.

Se seguirmos a cronologia dos “casos e casinhos” ficamos espantados, pois uns nasceram dentro do meio político e outros foram trazidos para a ribalta nacional pelos órgãos de comunicação social. Ora, em dado momento, a TVI, através de uma investigação levada a efeito pela jornalista Sandra Felgueiras, noticiou a intervenção da Presidência da República, nomeadamente de Marcelo Rebelo de Sousa, num caso de “cunha” para favorecer duas crianças brasileiras de nascimento, mas também com nacionalidade portuguesa. O Presidente ‒ face e responsável de uma instituição da nossa democracia ‒ não se lembrava de nada, quando os jornalistas o assediaram com perguntas.

Poucos dias depois, o Ministério Público, através da Procuradoria Geral da República, faz saber da situação de supostas e gravosas acusações de corrupção de ministros, incluindo de forma velada o primeiro-ministro. Estava criada a crise que punha em causa uma das instituições fundamentais da nossa democracia e só restava o Governo cair por pedido de demissão de António Costa. As baterias da comunicação social iam voltar-se contra a maioria parlamentar. Era o “grande caso” que há muito se esperava.

Mas quem é que criou a crise? Foi António Costa por achar que não tinha condições para governar ‒ coisa que continua a fazer, embora em regime de gestão ‒ ou o Presidente da República que aceitou a demissão?

A minha resposta, face aos factos, é que António Costa, imediatamente após as acusações da Procuradoria Geral da República, deu um extraordinário exemplo de assunção de responsabilidades. E nada mais digo.