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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

11.10.18

Tempos que correm


Luís Alves de Fraga

 

Ainda tenho bem presente na memória o que era o mundo – pelo menos a parte chamada ocidental – no fim da década de 50 do século passado: na Europa vivia-se a euforia da reconstrução e industrialização do pós-guerra, usufruindo a democracia em pleno; a Itália continuava à procura do “seu destino” entre o capitalismo e uma “outra via” para o comunismo; a França sentia a vontade pesada do velho general De Gaulle sustido por uma democracia com algum músculo; a Suécia impunha o modelo social-democrata de justiça equitativa; a Grã-Bretanha, mantendo tradições, era o exemplo de uma democracia consolidada. Nos EUA o boom económico justificava, em pleno, o auxílio financeiro à Europa dado através do Plano Marshall; por lá, definia-se o modo de vida designada por “american way of life”.

Do outro lado, no lado oriental, o mundo estava fechado às alegrias do consumo e da acção da justiça concorrencial, mas tinha, em compensação, um mercado planificado onde imperava mais pobreza do que abundância e a liberdade era tida como colectiva em oposição às liberdades individuais do capitalismo.

 

O mundo estava definido, espartilhado, explicado e, acima de tudo, “feliz”, fosse qual fosse o ponto cardeal por onde era olhado. As poucas manchas, na Europa, que “emporcalhavam” o panorama político e democrático situavam-se na Península Ibérica: as ditaduras de Franco e Salazar constituíam uma lembrança do fascismo derrotado, anos antes, pelos Aliados.

 

Tudo se manteve mais ou menos estático até ao começo dos anos 70 – embora com sobressaltos no Médio Oriente, por causa do “perturbador judaico” –, porque a exploração de petróleo ainda não constituía elemento de preocupação para nenhuma das partes: Ocidente, Oriente e Estados produtores. Mas foi logo no começo da década, que uma “nova ordem” se impôs: o preço do “ouro negro” não podia continuar a ser fonte de riqueza para uns e fonte de miséria para outros. A OPEP apostou na subida do preço do barril, impôs condições e a crise instalou-se.

 

Em África, as últimas colónias – que eram portuguesas – ascenderam ao estatuto de Estados independentes. O Bloco de Leste intrometeu-se e comprometeu-se fortemente no continente agora liberto. Foi, talvez, a última grande “ofensiva” estratégica de partilha do mundo. A URSS mostrava a sua debilidade face à corrida desigual com os EUA, com uma economia de mercado, e a sua economia planificada para o mercado interno e altamente concorrencial para se defender dos desafios ocidentais. Os dez ou quinze anos que se seguiram foram determinantes para deixar a descoberto a impossibilidade de manter o desafio Leste-Oeste. A derrocada era uma questão de tempo.

 

Mas a derrocada do Bloco de Leste, por razões de desmedida inércia do mundo capitalista, trazia, no seu seio, a derrocada do Bloco Ocidental. É a ela que estamos a assistir nos tempos que passam. A democracia política gerou dentro de si a “ditadura do capital”, através da globalização, que, por seu turno, assenta na prática, sem ética, de crimes sociais, económicos e políticos. Esta ditadura está a engendrar o monstro das próximas ditaduras políticas que, ou deixarão rédea livre para todas as imoralidades sociais e económicas ou, pelo contrário, redundarão em opressões iguais ou piores às que a História nos relata.

Parece não haver mais oportunidade para meios-termos.