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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

31.03.20

Sonhando… prometo


Luís Alves de Fraga

1959 - No «monte» Bicicleta.jpg

 

Se recordar é viver, creio, sonhar é recordar.

Esta noite, já sobre a madrugada, tive um sonho que me colocou, agora, em plena actualidade, na Aldeia Nova de S. Bento da minha juventude.

Ao acordar as imagens oníricas ainda estavam vivas; no momento em que escrevo, a maioria desapareceu para dar lugar a uma certeza: na minha conversa com o dono do carro, que me transportava, eu tinha consciência de já não reconhecer a terra dos meus Verões, a aldeia do calor seco, das sombras aprazíveis, dos prédios brancos de cal com faixas azuis a ladear as janelas e as portas. Aflitivamente queria explicar ao jovem condutor os locais por onde andei e ele nem os identificava nem ouvira falar das pessoas por mim referidas.

Onde estava o chafariz-bebedouro para os equídeos, lá na estrada a caminho do recinto da feira? E a escola primária? Quem era o senhor Bartolo? E a papelaria do senhor Coelho? E a velha taberna, junto da qual parava a camioneta da carreira de Beja, onde, ao entardecer, se ouvia o “cante” alentejano? E a exígua pensão bem próxima da igreja? E a farmácia, propriedade dos pais do major-general Manuel Monge, oficial de cavalaria, homem de confiança do general Spínola?

 

Desde a idade dos doze anos até aos meus vinte e três, com excepção de uma só época, passei as férias de Verão num pequeno monte comprado pelos meus pais na zona ou sítio conhecido, então, por Cova do Homem, a pouco mais de dois ou três quilómetros da Aldeia. Ficava junto a uma ribeira, a meia altura de uma suave encosta fronteira ao monte da D. Dulce (sobrinha do senhor Barata: um bom partido) e do senhor Moreira. Eram uns quantos hectares de figueiras e oliveiras onde, pelo meio, se semeavam os cereais (cevada-aveia, trigo e, para descanso da terra, tremoço).

Em Aldeia Nova de S. Bento fiz as minhas primeiras arremetidas de namoro: deitei o olho para a Vitória, moça engraçada, trigueira, com a minha idade, estudante, sobrinha do proprietário de uma mercearia numa esquina, lá ao fundo. Não tive grande sorte! A pasmaceira da vida na Aldeia não proporcionava encontros frequentes e os rapazes e raparigas tinham códigos de aproximação bem distintos dos que já se usavam em Lisboa. Estou a reportar-me aos anos que medeiam entre 1953 (a 2.ª Guerra Mundial tinha acabado havia oito Primaveras!) e 1964.

 

Porque os estios da minha juventude foram vividos entre o monte e a Aldeia, tão próxima da fronteira de Vila Verde de Ficalho ‒ onde bastas vezes ia de bicicleta ver passar os automóveis a entrar e sair de Espanha ‒, tive a oportunidade de perceber, de maneira efectiva, o que era, então, a miséria de quem dependia de trabalho sazonal, mal pago, ficando o resto do tempo a viver de migalhas. Vi como se fazia a selecção dos homens e mulheres que iam à praça para serem contratados para a jorna; vi como iam ficando para o fim os velhos, os mais fracos e os menos rápidos nessa luta entre o menor salário e a maior quantidade de trabalho; vi como regressavam a casa aqueles que sobravam sem hipóteses de angariar sustento para o dia. Vi talegos com um naco de pão e um pouco de toucinho para cobrar forças durante a jornada e vi talegos cheios de desespero por estarem vazios.

 

Por esses tempos, ouvi contar, quase em primeira mão, a morte de Catarina Eufémia, ceifeira de Baleizão, a poucos quilómetros de Aldeia Nova de S. Bento.

Anos passados e a necessidade de “arranjar” uma heroína ‒ foi-o, mas não na medida da lenda posterior ‒ fizeram dela o estandarte da luta dos proletários agrícolas de Portugal. Não gosto destes mitos! E entre nós, desde sempre, houve essa tendência. Nem o Viriato escapou, quando não havia Portugal ou Portugueses!

 

Fui a Aldeia Nova de S. Bento pouco antes de partir para a minha primeira comissão militar em Moçambique, em Novembro de 1966; só lá voltei em 1979. E fui, então, na companhia do meu pai, ver aquele que tinha sido o nosso monte.

Há coisa de dez anos ou talvez mais voltei à Aldeia, agora Vila Nova de S. Bento, e fiquei pasmado. Realmente, já quase nada era como na minha juventude. Igual, mesmo igual, só a tranquilidade de uma terra do Baixo Alentejo… ninguém nas ruas!

Não consegui acertar com o caminho para a Cova do Homem, percurso que fiz vezes sem conta, montado na minha bicicleta ‒ uma velha pasteleira muito pesada, que antecedeu as modernas e leves BTT; não fui capaz de descobrir o poço da aldeia, onde muita gente se matou por afagamento.

 

No sonho desta madrugada, repetiu-se a angústia da minha última real visita aquela terra do meu Alentejo.

Prometo, hei-de lá ir para reencontrar as memórias da minha juventude!

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