Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

26.12.19

Sidónio Pais: um percursor do fascismo internacional


Luís Alves de Fraga

 

Está quase esquecida a figura do major professor doutor Sidónio Pais, que foi Presidente da República, oficial de Artilharia, mestre de Matemática na universidade de Coimbra e ministro plenipotenciário português em Berlim, até Março de 1916. Por isso, resolvi, num tempo em que se fala de populismo, trazer aqui um pouco da sua história e do seu pensamento político.

 

Como republicano emparceirava na ala mais conservadora, tendo aderido ao Partido Unionista, liderado por Brito Camacho. Foi despachado para Berlim, em 1912, depois de uma breve passagem pelo Governo, na qualidade de ministro.

Por convicção ou concordância com as ideias do líder político unionista, foi contrário à beligerância portuguesa na Grande Guerra, aliás como muitos mais políticos e cidadãos anónimos. Mesmo quando estava no desempenho da sua função diplomática, mostrou sempre vontade de manter Portugal fora do conflito, sendo incapaz de perceber o alcance político, de natureza interna e externa, da entrada na guerra.

 

Regressado a Portugal, em 1916, solicitou licença para se ausentar do país, em gozo de férias, tendo ido para França, descansar, acompanhado de uma das suas amantes, porque era um homem incapaz de fugir dos envolvimentos amorosos extraconjugais. Depois de prolongar a estadia fora de fronteiras, regressou a Lisboa, onde começou a dar corpo à conspiração que o levaria a derrubar o Governo de Afonso Costa.

 

É importante trazer aqui uma outra figura política e revolucionária, esta mais destacada do que Sidónio Pais, para recordar a importância que teve no desenrolar de certos acontecimentos e projectos. Trata-se de Machado Santos, o oficial de Administração Naval a quem se ficou a dever a resistência no Parque Eduardo VII e que conseguiu a derrota das forças militares defensoras da Monarquia, no dia 5 de Outubro de 1910.

Na verdade, depois de golpe de 14 de Maio de 1915, que levou à governação de Afonso Costa, Machado Santos publicou uma pequena obra na qual defendia a mudança de matriz constitucional, propondo que, em vez da prevalência e preponderância do parlamentarismo, a República fosse presidencialista e, mais do que isso, que a Câmara dos Senadores fosse substituída por uma Câmara onde tivessem representação as forças produtivas da nação, ou seja, patrões e empregados.

Não tenho dúvidas de que Machado Santos delineou a estrutura do corporativismo, que, sete anos mais tarde, Mussolini começou a implantar na Itália com base no partido fascista. Mas quem se aproveitou das ideias do oficial da Marinha foi Sidónio Pais.

 

Realmente, depois do golpe triunfante de Dezembro de 1917, pôs em execução uma política de verdadeiro populismo como não era hábito em Portugal ‒ daí, anos mais tarde, Fernando Pessoa vir a designá-lo por Presidente-Rei, na medida em que adoptou comportamentos mais próprios dos monarcas do que dos Presidentes de repúblicas. Aproximou-se do chamado homem da rua, tomou banhos de multidão, falou para grandes massas, visitou hospitais, deslocou-se por todo o país, passou revista a tropas em garbosas paradas militares, inventou o distintivo de Presidente da República, desenhou o seu próprio fardamento, alterou a Lei da Separação das Igrejas do Estado, possibilitando a retoma de relações diplomáticas entre a Santa Sé e Lisboa, assistiu a cerimónias católicas, estabeleceu o sufrágio directo e universal para a eleição do Presidente da República, do qual beneficiou com uma elevadíssima presença nas urnas, reformou, por Decreto ditatorial, a Constituição da República, alterando o regime parlamentarista em presidencialista e acabou com a Câmara dos Senadores para a transformar numa Câmara quase corporativa, criou o seu próprio partido político, mandou encarcerar muitos dos seus opositores e ganhou fama de santo.

 

O populismo surgiu em força entre nós. Tão significativamente que me apraz contar um episódio relatado por um grande amigo meu, traduzindo o ambiente que se vivia em Portugal e, particularmente, em Lisboa.

Uma senhora, a avó do meu amigo, vinda de uma aldeia do Algarve para uma consulta médica na capital, suficientemente letrada ‒ o que não era comum na época ‒, desembarcou do comboio poucos dias depois do assassinato de Sidónio Pais e, perante a consternação geral, inquiriu o motivo para tanta tristeza, tendo-lhe sido explicado que tinham morto o Presidente. Ela, por o achar com “ar de boa pessoa”, decidiu entrar numa igreja e rezar por alma dele.

Este é o retrato do nosso povo naquele tempo e do efeito do populismo de Sidónio Pais.

 

Continuamos iguais? Julgo que, mutatis mutandis, nós portugueses e nós europeus, não sofremos alteração capaz de não aceitar formas de populismo mobilizadoras de vontades e de desordens. Ainda não conseguimos alterar a visão emotiva para, racionalmente, negarmos os efeitos distorcidos do populismo.

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.