Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Saudades

 

Tenho saudades de um "outro" Portugal onde havia miséria, mas podia haver pão para todos se houvesse liberdade e responsabilidade democrática. É um Portugal de há muitos anos que, parece-me, já não forma gente como a de então.

É um Portugal que recordo em pedaços de memória dispersos nos tempos.

 

Aos seis anos fui com o meu Pai, sozinhos, conhecer as minhas origens mais distantes, na distante freguesia da Fajã Grande, o povoado mais ocidental de toda a Europa, onde tinha os meus Avós, os meus Tios, os meus Primos paternos. E vi como se mugia uma vaca, como o meu Avô fazia, dos grãos de cereal, farinha, nas duas azenhas da Ribeira das Casas, como se carregavam grandes fardos de feno para alimentar o gado. E como quase todos, novos, de meia-idade, às vezes já velhos, andavam descalços. E soube que a ilha se atravessava a pé para consultar o médico, em Santa Cruz, porque o grande curador, o enfermeiro, a parteira eram simples curiosos guiados, diziam, pela mão e vontade de Deus.

 

E aos dez anos fui conhecer a terra da minha Avó materna, nas faldas da serra da Estrela, em Paranhos da Beira. E vi como se regavam os feijoeiros, como se desfazia uma massaroca de milho na eira, nas noites quentes de Agosto, como se manejava o mangual, como se ia de cântaro a cabeça até à fonte e as mulheres lavavam os pés descalços na borda de pedra do tanque que recolhia a água da nascente na rocha. E dormi naquelas casas feitas com grandes pedras de granito, com loja por baixo, onde as ovelhas e cabras pernoitavam, e as escadas para subir eram por fora.

 

E aos doze anos comecei a, todos os verões, passar férias num "monte" alentejano, muito perto da raia, onde o calor é mais forte. Vi ceifeiros e ceifeiras a alugar braços de trabalho por pouco mais do que eu, já mais espigado, gastava para beber uma "bica", num "café" de Lisboa. E vi gente tisnada do sol, com o talego na mão, perguntar no mercado da aldeia, quanto custava uma pouca de fressura para fazer um caldo... e ir-se sem avio, por falta dos tostões necessários para o bocado de fígado, baço ou pâncreas ali exposto para venda, porque a carne, a boa carne, era só para os que pagavam mal a quem lhes dava o rendimento para terem à mesa o ensopado de borrego.

 

Este Portugal morreu. Felizmente morreu, mas sem se renovar. Hoje o que se compra no supermercado não vem já destas aldeias, destas terras. Vem de outras onde se soube continuar a produzir sem vergonha de viver da terra. Os das nossas aldeias fugiram para as cidades e os campos perderam o vicejo de então. Fugiram, e Portugal está mais pobre, parecendo mais rico. Lavrar a terra, em Portugal, passou a ser vergonha por mera vingança sobre a miséria. Sachar, mondar, debulhar são lembranças de quem, por ter nascido na cidade, andou de visita por esse Portugal distante no tempo e nos trabalhos. E Portugal perdeu-se quando se achou. Não soube dizer não à exploração e sim ao trabalho livre. A lavoura tradicional tornou-se muito cara e nós empobrecemo-nos.

Tenho saudades de um Portugal telúrico, pobre e rico de potencialidades que o tempo esmagou para sempre.

2 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2006
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2005
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D