Ridículos e risíveis
Na edição online de hoje, do jornal espanhol El País, Teixeira Constela começava um seu artigo da seguinte maneira: «La guerra en Ucrania puede tener efectos secundarios a más de 4.000 kilómetros» (tradução livre: A guerra na Ucrânia pode ter efeitos secundários a mais de 4.000 quilómetros).
Interessei-me e li todo o artigo.
Tratava do relato desta novela que por cá se desenvolve à volta dos russos que recebiam, em Setúbal, os refugiados (na verdade, não têm esse estatuto, porque são fugitivos) ucranianos.
Para além de contar como foi espoletada esta questão, cuja figura central começou por ser a embaixadora da Ucrânia, passando, depois, para Igor Khashin, ex-presidente do Centro Cultural Russo em Portugal, e, logo de seguida, para o presidente da Câmara de Setúbal, André Martins e, por fim, para o PCP, cita palavras de António Costa que, na minha opinião, devem ganhar relevo graças à sua calma e ponderação política.
Claro que tudo isto não aconteceria ‒ tal como refere o presidente da Câmara de Setúbal ‒ se os serviços competentes, neste caso o SIS, tivessem informado o primeiro-ministro, António Costa, sobre as desconfianças que, parece, já recaíam sobre Igor Khashin. Do mesmo modo, nada disto aconteceria se continuassem a existir os Governos Civis dos distritos, por onde corriam estes assuntos; acabaram no Governo Passos Coelho, para poupar uns dinheiros, e não se procedeu à reorganização conveniente e estruturada das respectivas funções.
Mas, o que ressalta de pior na longa notícia é a parte final:
«La radicalización de la campaña contra la posición del centenario Partido Comunista Portugués ha llevado al primer ministro, António Costa, a advertir de que no alentará en Portugal “un clima de caza de brujas”. “Está clara la profunda divergencia que el Gobierno mantiene con la posición del PCP respecto al conflicto en Ucrania, pero pasar de la divergencia a la ilegalización es algo absolutamente inconcebible en un estado de derecho democrático y en un régimen democrático al que contribuyó mucho el PCP”, señaló el primer ministro.» (tradução livre: A radicalização da campanha contra a posição do centenário Partido Comunista Português levou o primeiro-ministro, António Costa, a advertir que não alimentará em Portugal um “clima de caça às bruxas”. “Está clara a profunda divergência que o Governo mantém com a posição do PCP a propósito do conflito na Ucrânia, mas passar da divergência à ilegalização é algo absolutamente inconcebível num estado de direito democrático e num regime democrático para o qual muito contribuiu o PCP” assinalou o primeiro ministro).
O verdadeiro problema não está plasmado nas palavras da correspondente do El País, mas consegue ver-se nas entrelinhas, se se estiver disposto a fazer-se essa leitura.
Realmente, toda a guerra russo-ucraniana esconde um dado que não é devidamente evidenciado pelos órgãos de comunicação social: ambas as partes lutam e militam num profundo nacionalismo, que ronda a ideologia fascista. Nem a Rússia nem a Ucrânia são verdadeiras democracias, pelo contrário, são regimes autoritários que fundamentam esse autoritarismo no mesmo nacionalismo que deu forma ao Estado Novo em Portugal ou à ditadura franquista em Espanha.
A propaganda proveniente dos Estados Unidos encobre este importantíssimo dado, fazendo-nos acreditar exclusivamente na luta do direito soberano de um Estado ter sido violado por outro. Isto, colocado desta forma, gera, naturalmente, sentimentos nacionalistas altamente perigosos para a União Europeia ‒ será conveniente não esquecer as posições contestatárias da Polónia (agora tão exaltada como exemplo de cooperação) e da Hungria, que, antes da invasão russa, eram alvo de críticas exacerbadas em consequência do nacionalismo nelas desenvolvido ‒ a qual assenta no esmorecimento da condição nacional para gerar o da união entre Estados.
Ao começarmos a conceber estes problemas de um profundo maniqueísmo, não queiramos tornar-nos o alvo risível e ridículo de uma Europa que, por enquanto, ainda se mantém unida, mas poderá desenvolver, amanhã, dicotomias políticas entre bons e maus.