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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

27.05.21

Retalhos de prosa


Luís Alves de Fraga

 

Boa noite.

Hoje vou deixar correr os dedos por cima das teclas para construir as palavras que me brotam em catadupa na mente.

 

39 anos

Ao fim do dia completaram-se trinta e nove anos que perdi o meu pai.

Não se trata da perda só de um pai ‒ e este “só” é imenso! ‒ porque o meu pai, desde os meus vinte e cinco anos, passou a aceitar-me numa relação de amigo mais jovem, mas amigo e confidente (essa coisa de se dizer que somos os melhores amigos dos nossos filhos é uma boa treta! É preciso que nos comportemos como tal no tempo certo e que, nesse tempo, eles nos aceitem nessa condição sem esquecer que continuamos a ser pais. Eu e o meu pai, depois dos meus vinte e cindo anos, sempre tivemos presente as duas condições, de pai/filho e de amigo mais velho/amigo mais novo).

Era tão engraçado termos um serão na semana para irmos ao café para conversar durante duas horas e meia! E tanto falava ele como eu. Trocávamos pontos de vista sobre tudo, desde a política nacional às questões familiares mais candentes. Falávamos dos seus projectos literários e jornalísticos, da sua experiência como autarca, da sua vida passada como enfermeiro da nossa Marinha, tal como, também, eu tinha oportunidade de contar das minhas preocupações de toda a natureza. Ele ouvia-me, tomando em consideração algumas das minhas críticas ou observações, e eu aprendia muito com tudo o que me dizia.

Tenho saudades? Claro que tenho, mas tive de aprender a viver com perdas e, de certa forma, aprendi muito garoto, a saber gerir ausências. Depois, depois é treinar a dor dentro do peito de modo a parecer que não existe.

 

Integração social e cultural

Por razões várias, recebo todos os dias inúmeras mensagens na minha caixa de correio electrónico e, entre elas, vêm sempre três ou quatro convites para assistir a conferências ou debates ou lançamentos de livros, tudo feito usando meios telemáticos, melhor dito, sem ter de sair de casa. Ora aqui está um excelente resultado da pandemia e da imposição de confinamento social!

Ontem tive a oportunidade de assistir a uma entrevista com a psicóloga social Susan Fiske, professora na famosa e prestigiada universidade de Princeton.

Foi um prazer ouvi-la (a entrevista tinha legendas em língua portuguesa), mas, por várias razões, ao perambular sobre integração social, diferenças sociais, culturais e sobre o possível choque provocado nesses “encontros”, às vezes desencontrados, ela disse uma frase que soou magnificamente nos meus ouvidos e provocou ondas síncronas no meu cérebro.

Transcrevo o que ela disse e, depois, tecerei um ou dois comentários:

«(…) nos Estados Unidos a integração de maior sucesso, integração institucional, é a militar. Porque se temos um pelotão integrado e vamos entrar numa situação de vida ou de morte não podemos ralar-nos com as origens da pessoa, pois a nossa vida está nas mãos deles».

 

Ao pensarmos nos Estados Unidos da América (EUA) teremos de levar em conta aquilo que, geralmente, não pensamos: aquele país é formado por gerações e gerações de imigrantes idos de todas as partes do mundo, uns de livre vontade e outros obrigados. Assim, aquela União de Estados existe de uma maneira muito diferente da União Europeia (EU): quem para lá foi voluntariamente queria continuar lá e fazer vida por lá e quem para lá foi obrigado procura sobreviver, pois não tem outra pátria para onde regressar ou que chame sua.

É este elemento que nos falta na UE, pois estamos identificados com o local onde nascemos e somos filhos de “imigrantes” que para aqui emigraram há muitos séculos, tantos que já esquecemos que os nossos antepassados não eram daqui. E, estranhamente, precisando de mão-de-obra para fazer aquilo que já não queremos fazer cá, aceitamos os emigrantes, os fugidos, os refugiados para trabalharem, contudo serão eles e os filhos deles sempre estranhos entre nós. São-no, porque não os sabemos integrar. E nós, os portugueses, acabámos com o instrumento que melhor serviria para agilizar essa integração: o serviço militar obrigatório.

Acabámos com essa prestação nacional, porque, também isso, achamos que só alguns devem fazer e, a fazê-lo, que o façam os que se sentem atraídos para essa profissão, pois, transformou-se aquilo que devia ser um direito e uma obrigação de cidadania num “emprego” e, por acaso, até precário.

A isto eu chamo falta de percepção política sobre as conveniências futuras.

Papá no escritório.JPG