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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

06.11.19

Reprovações e milhões


Luís Alves de Fraga

 

Para se pouparem uns milhões de euros, bastantes, os alunos do primeiro ao nono ano de escolaridade deixam de reprovar por falta de conhecimentos.

 

Qual o reflexo de uma decisão desta natureza, na actualidade e no futuro? Será esta uma das tais medidas estruturais? Vejamos.

 

Na actualidade, vamos assistir ao mais completo laxismo por parte dos docentes, como é natural. Vamos começar a lançar, ano após ano, alfabetizados carregados de iliteracia para a vida. Claro que, no futuro, este panorama vai alterar a maneira como os nossos adultos se posicionam perante a sociedade e o trabalho. Vamos ter, entre toda a gente que frequentou o ensino básico, indivíduos sem conhecimentos, perfeitamente desinteressados de quase tudo que não seja os assuntos da ordem do dia na televisão e nas redes sociais.

Esta será a consequência, à distância de quinze a vinte anos, da medida agora adoptada.

 

Façamos uma comparação entre a sociedade portuguesa quando nela havia menos de 40% de alfabetizados e esta outra que se avizinha.

Os analfabetos estavam confinados a trabalhos menores e muito mal pagos, não fazendo parte dos portugueses conscientes do mundo à sua volta; a sua vida confinava-se a um universo minúsculo, no centro do qual estava o vinho, a família, o trabalho, a miséria financeira, a falta de saúde, a mortalidade infantil, o futebol e, na grande maioria das vezes, a Igreja e o senhor padre. Depois, de entre os alfabetizados, saiam todos os que iam ter um futuro mais risonho através da frequência da universidade ou um futuro mediano como empregados administrativos no comércio e nas indústrias. Restavam, dos alfabetizados, aqueles que, acabavam em modestos trabalhos no Estado ou em actividades mecânicas onde regrediam a um analfabetismo com diploma de aprovação na chamada quarta classe.

Neste sistema, sabia-se que o futuro ia estar balizado pelos condicionalismos acabados de expor.

Não era bom, não era justo, não convinha que continuasse. Mas, olhemos com frieza para o futuro, com base no que sabemos do presente nesse mundo fora.

 

Com a medida adoptada a situação vai piorar, porque sendo todos, em teoria, alfabetizados, só alguns ‒ e nem sempre aqueles que seria expectável ‒ chegarão a entrar na universidade, porque, a grande maioria ficará para trás chapinhando na sua ignorância encartada de “sabedoria”. Vamos caminhar para uma mediania cultural em tudo semelhante à dos cidadãos rurais dos EUA ‒ sim, porque é necessário ter a percepção de que naquele país impera a mais aflitiva incultura e ignorância imaginável ‒ tal como à dos cidadãos médios britânicos ‒ vá-se a Albufeira vê-los ou às claques de futebol ‒ e alemães ‒ só capazes de perceber o seu trabalho e convictos da sua superioridade na Europa, mas incapazes de saber explicá-la.

 

Pelo quadro que tracei, vê-se perfeitamente, ser esta uma medida “estrutural” através de tornar os nossos alfabetizados iguais aos do resto da Europa e de uma certa América, tida como “desenvolvida”.

Esta sociedade vai ser “óptima” para trabalhar a preços baixos, satisfazendo-se com o desenvolvimento que lhe derem, assente no uso da Internet, nas vulgaridades mais evidentes, na ausência de anseios culturais, na aceitação incontestada das notícias da comunicação social, deixando-se levar, sem sentido crítico, nem capacidade observadora independente, assumindo que “cultura” é viajar e ver museus dos quais nada se sabe nem se quer saber. Uma sociedade assente na fotografia, cada vez mais fácil de fazer para se mostrar aparências.

 

Finalmente, estamos a alinhar com a Europa e o mundo capitalista. Viva a democracia dos telecomandados.