Querem que eu diga?
O Tribunal da Santa Inquisição quis que o grande Galileu se desdissesse, que negasse o movimento de rotação da Terra em volta do Sol. Para evitar, talvez, mais sofrimento físico, mais tortura, ele disse, ele aceitou a verdade inquisitorial, mas acrescentou, entre dentes, um “contudo, ela move-se”.
Estamos num tempo de Inquisição Pública que, estou quase certo, de santa nada tem. No mundo ocidental e, por conseguinte, por cá, pelo tal rincão à beira-mar plantado, quem, tal como no tempo de Salazar, não está com eles é contra eles, e, assim, quem não disser que a Rússia é governada por um louco, por um novo czar imperialista, que a Ucrânia está cheia de heróis, de democratas de primeira grandeza, que houve massacres cruéis levados a cabo por tropas russas desumanizadas, no território ucraniano, nesta e naquela cidade, nesta e naquela vilória, que a Rússia e o seu Putin feriram de morte a Carta das Nações Unidas, porque invadiram um Estado soberano quando nunca tal tinha acontecido, até agora, desde o fim da 2.ª Guerra Mundial é um comunista e um putinista (seja lá isso o que for) e, se calhar, qualquer dia, é, até, um traidor à Pátria.
Com a cultura militar que tenho, com o que sei de Estratégia (por acaso, fui o 4.º mestre em Estratégia, diplomado em Portugal, por uma instituição universitária civil e centenária) e de Ciência Política (sou licenciado, também, pela anterior instituição citada) e com o que sei de História contemporânea, tenho procurado separar aquilo que julgo ser desinformação, intoxicação e lavagem ao cérebro de todos nós, daquilo que me parece andar mais próximo da realidade, da verdade dos factos. E fui, de começo com suavidade e, agora, com certo rigor bem visível, sendo acusado de estar ao lado dos comunistas, da Rússia e toda a casta de gente que ousa desconfiar da honestidade dos ucranianos, dos americanos e dos tecnocratas de Bruxelas e da NATO; que não aceita por inteiro tudo aquilo que os media nos impingem em doses massivas sobre os horrores que se passam na Ucrânia levados a cabo pelos ferozes soldados russos.
Pronto, estou aqui qual Galileu para concordar convosco! Estou aqui, não para me contradizer, mas para aceitar que, afinal, é a Rússia a agressora e a Ucrânia a agredida. Todavia, como Galileu, deixem que vos diga, recebo, quase todos os dias, informações de várias fontes, que põem em causa o que os media relatam e, por isso, desconfio muito, muitíssimo, da vossa verdade, das vossas notícias, dos vossos comentadores. Duvido, porque, “contudo há um Batalhão Azov, há perseguições na Ucrânia e poderão ocorrer vinganças sobre todos aqueles que colaboram ou se dizem dispostos a colaborar com os russos, porque se identificam com a sua cultura e a sua língua”; porque, “contudo, acredito que há muita encenação por trás do real sofrimento dos civis ucranianos que não pegam em armas contra os russos invasores”; porque, “contudo, julgo, deve haver muitos interesses inconfessados e inconfessáveis por trás desta guerra”; porque, como disse Galileu, “contudo, ela move-se”!
Deixem-me em paz, e um dia concluirão, tal como Galileu, que "a Terra move-se sobre si mesma e à volta do Sol"! Verão os vossos erros e as verdades que agora negam!