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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

03.11.22

Queipo de Llano


Luís Alves de Fraga

 

Para muitos dos leitores desta crónica o nome que está em título nada lhes diz, mas, então, comecemos pelo fim.

Esta madrugada, da basílica da Virgem de Macarena, em Sevilha, foram exumados os cadáveres do tenente-general Queipo de Llano e da sua mulher para serem sepultados algures em cemitério mais recatado e pouco ou nada conhecido. A medida foi tomada em concordância com a chamada “Lei da Memória” que proíbe que estejam sepultados em templos ou lugares públicos com grande destaque os responsáveis por assassinatos durante a Guerra Civil e o franquismo em Espanha.

 

O general foi um dos conspiradores contra a República e que, apoiando Franco, conquistou Sevilha, sendo responsável pelo assassinato de 45.000 prisioneiros, que estão sepultados em valas comuns. Depois foi comandante militar de toda a Andaluzia. Quis disputar o poder a Franco, mas acabou marginalizado. Quando morreu, em 1951, foi autorizado o sepultamento do seu cadáver, devidamente embalsamado, na basílica da Virgem da Macarena, um dos últimos bairros de Sevilha a render-se aos nacionalistas.

Deve dizer-se que Queipo de Llano serviu a Monarquia contra a qual se rebelou, o que lhe valeu ser desgraduado e ser preso. Depois foi fiel à República, voltando às fileiras militares e chegando a ocupar um cargo de certa responsabilidade junto de um dos Presidentes de Espanha. De novo se revoltou para se colocar ao lado de Francisco Franco. Era, por conseguinte, aquilo que em bom português se chama, “um vira-casacas”.

Durante os três anos que durou a Guerra Civil ‒ uma barbaridade que, “convenientemente”, a Europa e o mundo já esqueceu ‒ arengou diariamente aos microfones da rádio de Sevilha, que, pela sua potência, era escutada em quase toda a Espanha, fazendo propaganda contra os republicanos, que apelidou de traidores, de perigosos vendedores da pátria, enquanto, exaltando os ânimos, aconselhava à denúncia e fazia equivaler a revolta nacionalista a uma cruzada religiosa contra o comunismo e o anarquismo. Por isso, para além de um criminoso, Llano foi um instigador de ódios, de vinganças e de denúncias quase sempre infundadas.

Recordo a história que li algures, há muitos anos, sobre o fuzilamento, em Badajoz, de um pobre homem que foi preso pelos nacionalistas simplesmente porque apresentava mais coçado o tecido do casaco, no ombro do lado direito. Alegavam os algozes, que ele usava a espingarda pendurada daquele lado; replicava o desgraçado que a sua profissão era a de cobrador de bilhetes nas camionetas e o coçado se devia ao roçar do cabedal da bolsa dos trocos. Foi fuzilado. Assim se agiu em Espanha, mesmo aqui ao lado, por causa de todos quantos instigavam ao crime e à vingança. O general Queipo de Llano foi, talvez, o pior de todos eles.

 

Na basílica da Virgem da Macarena, local e santa de grande devoção dos sevilhanos, passa-se a poder elevar os pensamentos ao Alto sem que sejam conspurcados com a presença do cadáver e a lembrança de um criminoso de guerra, que ali repousava para a suposta eternidade. Os fiéis ficam livres da sombra tenebrosa e assustadora do “pacificador” de Sevilha e da Andaluzia.

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