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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

13.08.22

Pouco a dizer


Luís Alves de Fraga

 

Podia ir repescar temas que já deixei aqui escritos sobre a guerra na Europa de Leste, mas era dizer mais do mesmo. Nos nossos noticiários, os fogos florestais apagaram o fogo do conflito entre a Rússia e a Ucrânia.

De tudo o que ainda se fala é dos bombardeamentos que podem acontecer junto da maior central nuclear da Europa e do perigo que tal representa. Também disso deixei, há dias, qualquer coisa dita.

Claro que não são os nossos fogos que tiram força às notícias sobre a guerra; é a própria guerra que está num impasse. O meio do mês aproxima-se e daqui até começar o mau tempo na Ucrânia falta pouco mais do que um outro mês. Por muito material de guerra ‒ peças de artilharia, munições, mísseis, drones e sei lá o que mais ‒ que a Ucrânia receba, as condições meteorológicas estarão lá sempre para impedir a infantaria de ocupar o terreno, porque nenhuma guerra se ganha sem que o soldado, com armas ligeiras nos braços, ponha o pé nos locais que se desejam conquistar ou reconquistar.

 

Creio que chegou a hora das conversações, primeiro, secretas e, lá mais para a frente, com a devida publicidade. E vai ser nessa altura que se estabelecerão os finca-pés de todos os lados: da Ucrânia, da Rússia, dos EUA, da União Europeia, da OPEP, da Argélia, da China e, até, se calhar, da Turquia.

Perguntará o leitor: «De tantos lados, porquê?»

Pois bem, por causa da luta de interesses que está em jogo. Repare nas seguintes confrontações possíveis (note que digo possíveis, pois estou simplesmente no campo das hipóteses):

A Rússia pretende manter ocupada a parte do território conquistada sem ceder nem um metro quadrado, exigindo a desmilitarização do que resta da Ucrânia, para impedir, deste modo, qualquer ligação à OTAN; a Ucrânia, não aceitando nenhuma das anteriores propostas, vai querer de volta todos os territórios e, provavelmente, a Crimeia; os EUA vão impor que a Ucrânia se mantenha firme na sua posição ofensiva e vão mandar mais armamento e, quase pela certa, conselheiros militares para apoiarem as tropas ucranianas, porque não desistem de vergar a Rússia e de implantar sistemas de armas sofisticados no território ucraniano; a União Europeia desejará, depois de sentir o frio e a falta de energia no Inverno, que as sanções aplicadas à Rússia desapareçam ou que sejam aliviadas face à falta de gás e de petróleo e às impossibilidades técnicas e económicas de ver abastecida a Europa do Norte e Central por gás ido da Península Ibérica (esta posição terá de levar à definição urgente de uma nova estratégia de defesa e a uma nova política de produção de energia que, quase pela certa, resultará na activação, se possível, das velhas, e construção de novas e modernas, centrais nucleares); a OPEP, sem ver diminuir os seus lucros, tentará manter-se como fornecedora privilegiada de energia à Europa, sem prejudicar as relações comerciais com a Rússia; a Argélia estará interessada em substituir a Rússia enquanto principal fornecedor de gás à Europa, pelos dividendos estratégicos e políticos que daí lhe poderão advir no futuro controlo de uma União Europeia fragilizada e dependente; a China verá com muito bons olhos a continuidade da tensão entre os EUA e a Rússia, através da campanha na Ucrânia, porque ganhará tempo e oportunidades para consolidar a sua economia como globalizante (lá se produz tudo ou quase tudo o que nos rodeia na Europa e nos EUA) e melhorar as suas forças armadas para subir ao patamar que, por tradição (e só tradição, como é visível agora), pertencia à Rússia, podendo fazer frente aos EU; e, por fim, a Turquia que, pertencendo à OTAN, tem boas relações diplomáticas com a Rússia e não vê com bons olhos o alargamento da Aliança aos países da Europa do Norte, desenhará assim uma relação tensa com os EUA e apoiará a Rússia nas suas reivindicações, pois uma Ucrânia militarizada e posicionada como ponta-de-lança para a Rússia, não lhe traz vantagens estratégicas.

 

Não pretendi ser exaustivo, mas julgo ter esboçado, a traços largos, os contornos dos efeitos que, provavelmente, entre outros, se vão chocar no próximo Inverno para encontrar uma solução que não arrase a União Europeia tanto do ponto de vista da segurança quer da economia. Mas, qualquer que seja a solução, de uma coisa podemos ter a certeza, a vida na Europa não vai ser igual à que foi nos últimos trinta anos: a inflação vai subir, os hábitos de consumo vão alterar-se, as comodidades vão ser diferentes e a busca de um espaço na política mundial vai determinar comportamentos de segurança e de dependência distintos daqueles que se seguiram à implosão da URSS.