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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

05.05.20

Poesia com métrica


Luís Alves de Fraga

 

Quanta poesia anda escondida por entre páginas de jornais velhos, revistas e outros periódicos esquecidos? Quanta ficou em gavetas carcomidas pelo bicho da madeira? Quantos poetas não viram ou não quiseram publicada a sua poesia?

 

Houve tempo em que poetar implicava usar uma rigorosa métrica silábica a par de uma rima elegante. Foi, segundo estas balizas, que Camões escreveu toda a lírica e, também, Os Lusíadas. Foi assim que Garrett, António Feliciano de Castilho, Antero de Quental, Guerra Junqueiro e tantos, tantos outros passaram à memória literária portuguesa. Foi sobre o silêncio de muitos, que bastantes fizeram ouvir os seus versos.

Claro, há muito má poesia metrificada que merece o olvido geral, mas nem o mau justifica o silêncio sobre o bom, nem este deve servir para enterrar mais fundo aquele.

Arrisco-me a dizer que os Portugueses têm ‒ será melhor dizer, tiveram? ‒ a poesia no sangue. É ‒ foi ‒, talvez uma manifestação da característica saudade ou da melancolia nacional. De certeza é/foi a marca dos sentimentos à flor da pele.

 

O meu pai, como os jovens da sua época, açoriano ‒ motivo mais do que suficiente ‒, também versejou com métrica. Publicou em revistas da ilha Terceira, quando era seminarista, e muitos anos mais tarde voltou à poesia, quase no fim da vida, quando percebeu que poderia mostrar-se por dentro sem que tal fosse um acto de fraqueza.

Estão esquecidos, até pela família, os poemas que fez. Guardo-os nos manuscritos e não recuperei os publicados em jornais.

Há, contudo, um soneto pelo qual nutro especial carinho, por vários motivos: foi escrito já depois de ter completado sessenta anos, quando sentia não ir viver muito mais; mostra o sonhador que foi e não se permitiu ser ou expor como era; evidencia uma ternura que não lhe estava no hábito.

 

Como acordei hoje com a memória dele ‒ do meu pai ‒ bem presente e mais a dos seus esquecidos poemas, deixo aqui o tal soneto dirigido ao cuidado dos netos ‒ a Helena Teixeira, o Luís Fraga Jr., a Inês Tavares Rodrigues Fraga e a Sofia Fraga ‒ e de um bisneto que gosta de poesia ‒ Carlos Tiago Robalo.

 

«Os meus sonhos, como nuvens, vão dispersos

‒ São pombas que fugiram de um pombal –

Seguindo rumos vários, já imersos,

Na senda de inclemente vendaval…

 

Sonhos loucos, criados nos reversos

Da cunhada medalha do Irreal,

Procuram, em tropel, mundos diversos

Em longa caminhada sideral.

 

Gótica catedral, por mim erguida,

Em cada ogiva pus, como em guarida,

Um sonho, uma ilusão, uma quimera.

 

Desfez-se a catedral – era de espuma,

Das minhas ilusões ficou só uma,

Incerta da Certeza que eu quisera!»

 

Em tempo de isolamento, também nos isolamos sobre memórias e lembranças de outros tempos.