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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

01.12.20

Páginas do Meu Diário - 10


Luís Alves de Fraga

20 de Fevereiro de 2019

Afinal, quando não se estuda devidamente a política externa de António Salazar durante a 2.ª Guerra Mundial, pode-se ser influenciado pela propaganda feita na época à volta do grande génio, que salvou Portugal dos horrores do conflito.

É verdade que não fomos sujeitos aos dramas advenientes da guerra, mas é mentira que isso se tenha ficado a dever a qualquer golpe de genialidade. O que aconteceu foi que Salazar ‒ além de presidente do Conselho de Ministros era também ministro da Guerra, dos Negócios Estrangeiros e das Finanças ‒ soube ir fugindo aos apertões dados tanto por Londres como por Berlim e, até, Tóquio.

Logo no começo do conflito declarou, sem consulta prévia ao Governo britânico, a neutralidade portuguesa. Em abono da mais elementar justiça ‒ se é que deve haver justiça na História ‒ é de realçar que procedeu com grande sentido de soberania (nessa altura e só nessa altura), se comparado com Bernardino Machado, em 1914, quando eclodiu a Grande Guerra, pois este, depois de uma semelhante afirmação de soberania, recuou e acabou por ceder à tentação de consultar Londres sobre o que devia fazer. Na atitude de Salazar pesou o conselho de um velho monárquico, director-geral dos Negócios Estrangeiros, Luís Teixeira de Sampayo (morreu dois dias depois de, no hotel Aviz, ter tentado beijar a mão à ex-rainha D. Amélia ‒ disse-lhe «Majestade, sinto-me mal» e caiu inanimado ‒, quando esta foi autorizada, por Salazar, a visitar Lisboa, em 1945), primo de um outro diplomata (Carlos Sampaio Garrido) que, em Budapeste, salvou a vida aos pais e a uma imã de Zsa Zsa Gabor, aconselhando o ditador a não cuidar de saber a opinião do Foreign Office, pois, no passado, se havia inquirido em excesso sobre o que fazer em matéria internacional.

Mas, para entradas de leão, Salazar teve, como é habitual naqueles que não possuem arcaboiço para mais, saídas de sendeiro. Com efeito, a neutralidade, sendo uma figura diplomática e política na relação entre Estados, carece de muito mais do que a simples afirmação de distanciamento, porque para o garantir tem de haver força, em especial, militar, e Portugal não a tinha como continua a não ter. A neutralidade pressupõe a possibilidade de dissuadir os beligerantes de qualquer agressão, uma vez que lhes pode sair mais cara do que o ponderado distanciamento e respeito pela soberania do Estado neutral.

O posicionamento geográfico de Portugal era, logo no início da guerra, invejável para Alemães e para Britânicos; não só o posicionamento continental ‒ a vasta costa marítima ao longo da qual passa quase toda a navegação do e para o Norte da Europa continua a ser interessante para controlo do comércio internacional ‒ mas, em especial, os territórios insulares da Madeira e dos Açores e, na altura, os cabos submarinos, importantíssimos para as comunicações intercontinentais, amarravam em algumas das ilhas deste último arquipélago. Somente isto exigia que, para garantir a neutralidade, Portugal fosse capaz de manter à distância a Alemanha e a Grã-Bretanha. Lisboa só podia contar com boas vontades e bons ofícios internacionais, armas insignificantes num tempo em que os tratados não passavam de simples papéis descartáveis em nome de interesses maiores!

A suma prova do que acabo de dizer foi dada em 17 de Dezembro de 1941 quando uma força militar australiana, sem aviso prévio, tomou de assalto a ilha de Timor, na parte portuguesa e na parte holandesa. Ficou ferida de morte a neutralidade nacional não por tropas do Eixo, mas por forças Aliadas. Foi uma declarada ofensa à política internacional de Portugal. Salazar reagiu com brusquidão junto de Londres, reclamando, mas só reclamando, contra o atentado perpetrado pelos Australianos que, preventivamente, garantiam posições avançadas, prevendo o ataque japonês.

Em Lisboa determinou-se, acessoriamente à reclamação diplomática, a preparação de uma força expedicionária para seguir, por via marítima, para Timor a fim de impor a neutralidade nacional. Foi uma fraquíssima demonstração de soberania, tanto mais que, em 20 de Fevereiro de 1942, atendendo a que a ilha de Timor estava ocupada por tropas Aliadas, o Japão invadiu-a e, matando a resistência imediata, levou a que fugissem para as montanhas tropas australianas com alguns civis e militares portugueses oferecendo, em acções de guerrilha, a resistência possível. As tropas expedicionárias ficaram em Lourenço Marques, Moçambique, a aguardar melhor oportunidade para avançar rumo a Timor. Entretanto, o Governo de Lisboa apresentou uma suave reclamação junto da embaixada nipónica ‒ nada comparável com o que havia feito em Londres, meses antes ‒ numa clara demonstração de não hostilidade para com um Estado que poderia declarar guerra a Portugal.

Berlim, Londres e Washington perceberam perfeitamente bem que, acima de tudo, Salazar, fizessem o que fizessem, tinha como objectivo não levar o país para a guerra, abrindo, deste modo, Portugal a todo o tipo de chantagem diplomática e, até, militar, que as chancelarias quisessem fazer. Para o ditador fascista ficava aberta uma única hipótese: retardar a efectivação das manobras aprontadas por Estados terceiros para tornar real a chantagem. Ceder, sim, mas tão lentamente quanto possível.

Nada disto foi desvendado aos Portugueses durante a guerra ou após ela. O que a propaganda fez foi exaltar as capacidades diplomáticas de António de Oliveira Salazar, tornando-o num paladino da paz, num herói, que salvou o país dos horrores do conflito! Não se dizia, nem se disse, que foi um trafulha, incapaz de salvaguardar a dignidade nacional e, acima de tudo, um oportunista.

Em consciência, ao escrever o que escrevo, não me anima raiva nenhuma, tão-somente desejo de deixar o meu testemunho de historiador nestas reflexões íntimas.

Por hoje, já chega.

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