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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

26.11.20

Páginas do Meu Diário - 7


Luís Alves de Fraga

17 de Fevereiro de 2019

Hoje é domingo. E o domingo foi sempre um dia muito especial para mim, desde a mais tenra idade até ser adulto com graves e grandes responsabilidades. Apetece-me contar esta curiosidade, até porque explica outros tempos e outras formas de viver.

A consciência do dia de domingo começou quando era muito pequeno, talvez com três ou quatro anos, pois era o dia de visita a casa dos meus avós maternos, que coabitavam com a minha tia Maria José ‒ a tia Zezinha ‒ o marido e os dois filhos ‒ o Fernando e a Judite.

A minha mãe aprontava-nos, a mim e à minha irmã, para sairmos de casa o mais cedo possível ‒ não sei a hora, mas devia ser por volta das dez e meia ou, talvez, antes ‒ porque o meu pai, geralmente, só ia ter connosco há hora do jantar; tinha por hábito dormir à tarde para se refazer das noites de serviço no Hospital de Marinha. Tomávamos o eléctrico até à rua da Conceição e, depois, íamos a pé até ao Terreiro do Paço ‒ a Praça do Comércio, de hoje ‒ onde apanhávamos outro eléctrico até ao largo da Boa-Hora. Seguíamos, a pé, pela travessa do mesmo nome e entrávamos no prédio de esquina, o número 140 da Calçada da Ajuda. Os meus avós viviam no segundo andar.

Era uma asa cheia! Por lá estavam já, quando chegávamos, a sogra da tia Zezinha ‒ a primeira pessoa que vi com uma prótese ocular (um olho de vidro) ‒ de cabelos muito brancos, mexendo-se com dificuldade, e a filha dela (cunhada da minha tia), o marido, que era sargento artífice do Exército e me fez a primeira mesa com pés para comer na cama, quando estive doente, e o filho, o Hélder. Depois, aparecia o meu tio Armando, o irmão mais novo da minha mãe e da tia Zezinha, com a mulher, a tia Celeste, e o meu primo Carlos Alberto.

As mulheres mais activas ‒ a minha mãe, irmã e cunhadas ‒ iam ocupar-se dos afazeres da cozinha e mesa de refeição, os jovens ‒ a minha irmã, a minha prima e o irmão mais o Hélder ‒ iam conversar ou fazer brincadeiras próprias da idade ‒ eu e o Carlos, os mais novos, ficávamos entretidos com os brinquedos inventados ou trazidos de casa; os mais velhos de todos conversavam, se calhar, queixando-se das suas maleitas.

Recordo muito bem a imensa paciência que o meu avô Alves tinha para lidar com animais. Usava uma pequena navalha para cortar quase tudo, desde os pequenos pedaços de pão até à carne e ao queijo. Servindo-se dela recolhia alimentos que dava ao cão rafeiro, que existia lá em casa ‒ o Seta ‒ já que ao gato ‒ o Tarzan ‒ se limitava a fazer-lhe festas quando lhe saltava para o colo. Mas do que eu gostava mesmo era de ouvi-lo contar estórias das suas campanhas em Moçambique e em França! Diziam os adultos que se repetia muito, mas, para mim, os relatos tinham sempre o sabor de novidade. Precocemente foi atingido por uma notável surdez ‒ sabemos hoje, consequência das muitas tomas de quinino para combater as febres palúdicas ‒, contudo, com aquela forma própria de ser característica dos alentejanos, continuava a falar, pausadamente, para meu agrado, porque, julgo, nem o Carlos, mais novo que eu dois anos, nem todos os restantes já ligavam grande importância ao que vivera nas campanhas de pacificação e na Grande Guerra. Gostava de recordar o exercício da autoridade militar que cresceu com ele, pois, assentou praça com a idade de quinze anos e, porque era espigado, na arma de Cavalaria. Tinha mais de um metro e oitenta de altura, coisa que, na época, não era frequente. E, tendo estatura elevada, tinha, também, uma especial aptidão para andar à pancada.

Chegada a hora do almoço ‒ cozinhado num fogão a lenha, de ferro e sempre preto ‒ lá íamos para a mesa, montada numa divisão da casa, designada por marquise, um acrescento ao prédio, ainda hoje perceptível, apoiado em pilares de ferro, com janelas amplas de vidro (agora já desaparecidas).

Da marquise tinha-se uma soberba vista do rio Tejo, lá mais em baixo e, do outro lado, do Porto Brandão ainda e só único agregado urbano naquela zona da colina verdejante da margem esquerda. Imediatamente, do outro lado da travessa da Boa-Hora, avistava-se a parada do quartel do Regimento de Infantaria n.º 1.

Esta divisão da velha casa pombalina dos meus avós (o corredor de entrada, era revestido com um amplo painel de azulejos com motivos azuis e amarelos) era o ponto de convivência social durante todo o dia. Confinava com a cozinha, a casa-de-banho e o quarto dos meus avós, por onde se podia entrar através de outra porta. Era tão grande que tinha espaço para, junto das paredes, estarem duas boas máquinas de costura, um divã, uma cristaleira onde se guardavam os pratos, copos e talheres e, no centro, a imensa mesa ‒ que encolhia e esticava ‒ com cadeiras onde nos sentávamos para tomar as refeições. E ainda sobrava parede, para um amplo planisfério onde o meu avô ia marcando com alfinetes as reconquistas feitas pelos Aliados na avançada contra as forças do Eixo.

Durante a refeição era o momento das conversas cruzadas, das idas à cozinha donde se voltava com grandes travessas de comida ou terrinas de sopa. Não tenho a certeza se sempre aconteceu assim, mas, creio, a partir de certa altura, o meu lugar era à direita do meu avô, de costas para a vista sobre a travessa da Boa-Hora.

De uma vez, no lado de lá da mesa, na minha frente, estava a Bernardette ‒ a Detinha, como lhe chamava toda a gente ‒, a minha irmã, que me começou a fazer caretas e a provocar. Sempre gostei dela de uma maneira muito especial. Tão especial que, recordo-me, em pequenito, nutri o desejo de casar com ela, vejam bem! Mas, também é verdade, nasci com um feitio irritadiço e incapaz de medir consequências quando perco a cabeço. Assim, zangado, peguei no garfo e zás, lá vai ele direito à cara da Detinha! E não é que ficou espetado um pouco abaixo da zona orbital do olho esquerdo!

Já não me lembro bem, mas devo ter apanhado uma valente sova dada a várias mãos, tão valente que, por questões pós-traumáticas, devo ter perdido a memória das dores nas nádegas. Não esqueci foi o garfo pendurado na zona do malar esquerdo da face da minha irmã.