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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

25.11.20

Páginas do Meu Diário - 6


Luís Alves de Fraga

16 de Fevereiro de 2019

Afinal, os receios de ontem, eram infundados: nem rastos da mais ligeira constipação! Estou bem.

A Madalena, porque é sábado, levantou-se um pouco mais tarde e, enquanto preparava o pequeno-almoço, ligou o pequeno aparelho de rádio ‒ coisa barata e de fraquíssima qualidade sonora ‒ que temos na cozinha. Fomos falando e ouvindo um programa onde os locutores, à viva-força nos querem impor boa disposição. É uma atitude que me causa certos engulhos, pois nem sempre foi assim. Tempos houve de contida boa disposição e, às vezes, já lá vão muitos, muitos anos, de declarada indisposição.

Antes da televisão, o rádio ou, dizendo de forma completa, a radiotelefonia era o meio de comunicação com o mudo fora do nosso círculo privado de relações.

No ano em que nasci, quem nas cidades portuguesas tinha um aparelho de telefonia e estava interessado em ouvir as notícias divulgadas pelos Aliados, escutava, em segredo e com o som reduzido a quase nada, a BBC. Dizia-se que andavam na rua viaturas automóveis a verificar quem estava a escutar aquela estação de rádio britânica. Tanto quanto sei, é mentira: a polícia política perseguia, por denúncia, aqueles sobre quem recaía a suspeita de ouvirem a BBC ou de se manifestarem abertamente a favor da vitória dos Aliados. O que, na verdade, era alvo de perseguição através de um sistema de detecção de emissão rádio eram comunicações não autorizadas. Dessa acção estava encarregada, tanto quanto sei, a Legião Portuguesa

Essa organização paramilitar havia sido criada pelo Decreto-Lei n.º 27 058 de 30 de Setembro de 1936, com o fim de «defender o património espiritual da Nação e combater a ameaça comunista e o anarquismo».

Note-se que não era uma força partidária semelhante às já existentes na Alemanha ou na Itália. Salazar opusera-se a que se criassem tais tipos de bandos; estava-se em Portugal, no país dos brandos costumes, católico, conservador e não belicista. A política a fazer não passava por se mostrar agressiva, viril e guerreira, como acontecia na Itália de Mussolini. A nossa tendia mais para a sotaina ou para o hábito fradesco. Por isso mesmo, muito mais cínica, mais subtil e mais sibilina. Assim, a Legião Portuguesa, onde militavam os apoiantes incontestáveis de Salazar e do Estado Novo, ficou integrada na estrutura do Estado, com uma organização militarizada, ainda que, nesses anos, fosse a ponta-de-lança do apoio ao nazismo hitleriano. Nas fileiras da Legião falava-se abertamente na intervenção na guerra, ao lado dos exércitos germânicos, contra a vontade de Salazar, apostado na manutenção de uma neutralidade a todo o custo.

A outra vertente, essa sim, assumida pela Legião era o combate ao comunismo e ao anarquismo. E é conveniente que se perceba a razão de tal luta feroz.

Em Portugal, já só depois do final da Grande Guerra é que surgem organizados em partido os primeiros comunistas; não tinham força nem grande implantação, por falta de influência estrangeira e, verdade seja, o operariado fabril, por cá era diminuto e havia, há muito ‒ ainda no final do século XIX começo do seguinte ‒, sido captado pelo Partido Socialista, cuja maior implantação era na Covilhã ‒ indústria de lanifícios ‒ e no Porto, mas, o grosso dos trabalhadores, organizados em sindicatos, recebiam formação ideológica de matriz anarquista. Foi essa que marcou a luta com características quase terroristas durante grande parte da 1.ª República. Era o anarco-sindicalismo na sua vertente mais aguerrida. Ora, no final dos anos trinta, nem o anarco-sindicalismo estava erradicado de Portugal nem o comunismo tinha atingido grande preponderância na luta contra a ditadura. Daí que a Legião Portuguesa zelasse pela tranquilidade dos Portugueses, lutando contra ambas as correntes ideológicas.

No nosso país, uma certa classe média, desejosa de tranquilidade social, mesmo que à custa de ceder a liberdade de expressar livremente o pensamento, pouco antes do ano do meu nascimento, apanhara um susto de grande dimensão: mesmo ao lado, em Espanha, havia caído a Monarquia e foi proclamada a República que, de imediato, extravasou ‒ e percebe-se qual o motivo ‒ uma raiva surda existente nos meios rurais e urbanos de província contra a classe mais endinheirada do país, em particular os grandes agrários da Andaluzia e da Extremadura, e contra o clero católico, que, há muito, se havia conluiado com a Monarquia, com os grande senhores da terra e com o grande capital. A República trouxe uma onda raivosa de vingança, que só perdeu força quando se saciou no sangue de monges, monjas, padres e alguns latifundiários.

Embora aparentemente houvesse ordem na Espanha republicana, o certo é que, em especial, os anarquistas se foram impondo na acção reivindicativa e revolucionária. Hoje sabe-se ‒ como se soube na altura, mas não convinha divulgar ‒ os chamados rojos (vermelhos) eram muito menos comunistas do que anarquistas, acabando os primeiros por ter de ir a reboque dos segundos ‒ quase até ao final da Guerra Civil ‒ para controlar os desmandos inconsequentes de que eram autores.

A revolta de parte do Exército espanhol contra a República deu origem ao começo da Guerra Civil. Foram três anos de luta fratricida, envolvendo espanhóis e outros voluntários que lutaram em ambas as partes em confronto. No dia 1 de Abril de 1939, Franco, em Madrid, proclamou a vitória alcançada com o apoio descarado de tropas italianas, às ordens de Mussolini, e alemãs, às ordens de Hitler. Também Salazar, como pode e ao seu jeito sibilino, auxiliou Franco e a ditadura, que deixou atrás de si milhares de mortos. O receio do contágio dominou o ditador português e levou-o a adoptar medidas rigorosas contra as ideologias políticas mais atrevidas que, também, existiam entre nós. A verdade é que, com a derrota da República em Espanha, pode dizer-se, morreu o anarquismo enquanto força revolucionária; tornou-se num grupo de intelectuais bem-pensantes, mas quase incapazes de mobilizar qualquer força. O verdadeiro perigo, para os ditadores europeus e mundiais, veio a afirmar-se, através dos comunistas arregimentados pelo Partido articulado com Moscovo e seguindo directivas de lá emanadas.

A luta anticomunista acabou por servir de passaporte para os fascismos (e sobre o facto de os designar deste modo haveria muito a explicar) terem aceitação junto das democracias liberais da época receosas de revoluções soviéticas.