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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

25.08.20

Páginas do Meu Diário - 5


Luís Alves de Fraga

15 de Fevereiro de 2019

Depois de me levantar, já espirrei três vezes e fui acometido por dois ataques de tosse. O enfisema assusta-me pela fragilidade que tenho ao nível respiratório e o receio de contrair uma pneumonia. É a forma mais segura de fazer morrer gente da minha idade. Curioso, o escrever sobre isto, lembrou-me uma outra vinda do tempo em que não tinha, rigorosamente, qualquer consciência de mim.

Ao nascer, segundo tradição contada entre familiares, terei tido dificuldade a dar resposta à tradicional palmada, que leva ao choro, ao grito, provando que se encheu os pulmões de ar e se respirou. Não queria nem chorar, nem respirar e, segundo o hábito da época, lá fui metido em água quente e água fria para provocar o enchimento dos pulmões com ar. Mas a água quente estava, ao que parece, bastante quente, de modo que aplicaram-me um escaldão, que me pôs a fazer sons até ao dia de hoje!

Problema foi, que dias depois, aquando do meu baptizado, na igreja dos Anjos, o padre Esteves, oficiante, disse para o meu pai, enfermeiro da Marinha de Guerra, que era preciso ir ao médico com o menino, pois estava com um problema de pele. Célebre ficou a resposta do meu progenitor: «Ora, senhor padre, trate-lhe da alma, que do corpo trato eu!».

Creio que o meu pai cumpriu melhor o seu vaticínio do que o pobre sacerdote, que, acompanhou-me na catequese, na primeira comunhão, no crisma e, por fim, no meu primeiro casamento… Mas não me cativou, deveras, para continuar devoto da Igreja. Isso a seu tempo tratarei aqui.

Porque vem a propósito, sendo oportuno agora, vamos lá recordar os meus pais, tal como me lembro deles nos primeiros anos de vida. É que me lembro e bem!

As memórias da minha mãe vêm lá muito de trás salpicadas de pequenos episódios que irei repetindo ao longo deste relato, por isso não me detenho muito nelas; passarei às do meu pai, por vários motivos: julgo que me marcaram muito e tornaram-se determinantes para o meu crescimento.

2.º sargento enfermeiro da nossa Armada, quando eu nasci, o meu pai, açoriano a da ilha das Flores, foi aluno do seminário de Angra do Heroísmo até quase concluir o curso e estar preparado para se tornar sacerdote. Não acabou, porque não tinha vocação. Também, porque nascido em 1907, foi apanhado pelos efeitos da Lei da Separação das Igrejas do Estado, de 1911, e, ao sair do seminário, para além de uma muito boa cultura clássica, não tinha mais, oficialmente, do que aquilo que hoje se chama o quarto ano de escolaridade. Contudo, escrevia com primor, poetava, e lia quase compulsivamente. Sempre comprou, diariamente, o vespertino Diário de Lisboa, que devorava da primeira à última página; creio que, quinzenalmente, adquiria mais dois outros jornais: a Vida Mundial e o Sempre Fixe (uma folha humorística que, dentro dos condicionalismos da censura, estava pronto a dar grandes alfinetadas no Governo). À noite, na cama, abria um livro ‒ romances ‒ e adormecia a ler. Foi isto que me marcou. Foi esta a primeira impressão do meu pai: ler e escrever era como respirar!

Depois, depois recuando na memória até ao limite mais distante, vem o tormento de comer! Conto, para não deixar dúvidas.

A minha mãe ‒ creio que, como todas as mães da época ‒ era ansiosa quanto ao peso deste garoto. E eu, não sendo magro, era pouco nutrido para o gosto e desejo dela. Acresce que era uma criança irrequieta ‒ o que hoje se chama hiperactivo ‒ e, comer era um tormento. A minha mãe azucrinava constantemente o meu pai porque eu não comia. Ele não era propriamente dito um poço de paciência e, claro está, obrigava-me a comer os bifes, o arroz, as batatas e tudo o mais que já não recordo. Do que me lembro ‒ até porque ainda hoje tenho uma vaga tendência para o fazer ‒ é que, à semelhança de certos símios, acumulava a comida numa das bochechas, na boca, e não havia nada capaz de me levar a engolir aquela massa misturada de sabores diferentes. Nem as valentes palmadas dadas pelo meu pai, em desespero de causa. Só estava dispensado de comer, se vomitasse… E eu não conseguia provocar o vómito de forma nenhuma!

Admito, está aqui a razão de nunca me ter tornado num bom garfo. Comer o suficiente para viver sempre foi o meu objectivo. Não vivo para comer.

Recordo, muito vagamente, a ansiedade da minha mãe quando o meu pai perdia a cabeça e me dava uma ou duas valentes palmadas. É que, no meio de tudo isto, eu era o menino da mamã. Ela vivia entre a alegria de me ter ali, junto a si, e o medo de que qualquer doença me levasse para a eternidade. E tinha razão para tal, pois a mortalidade infantil, nesse tempo, em Portugal, era altíssima.

Como se verá, tive uns pais fantásticos e uma irmã ‒ mais velha sete anos ‒ extremosa.