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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

24.08.20

Páginas do Meu Diário - 4


Luís Alves de Fraga

14 de Fevereiro de 2019

Não sou fã dos Britânicos e, em particular, dos Ingleses. Não se trata de contágio do estudo da História portuguesa e das malfeitorias das quais são responsáveis. Não. Não gosto deles por causa da sua arrogância na vida e na política, da sua imperturbável tranquilidade, do seu arreigado sentido de independência e isso levou-me a, ao sentar-me aqui, frente ao computador para escrever coisas sobre mim, sobre o meu tempo, a minha vida, reflectir no complicado processo de abandono da União Europeia em que o Governo de Sua Majestade Britânica se meteu.

Leio, com alguma facilidade, ensaios escritos na língua de Shakespeare, mas não romances e menos ainda poesia. Nunca estudei a língua a fundo, porque me recusei a cumprir a programação do meu tempo de ensino; achava que os idiomas estrangeiros deviam ser aprendidos tal como as crianças os aprendem: ouvindo, falando e dando tropeções na ortografia, na gramática, na formação das frases e não como se exigia há sessenta ou cinquenta anos: sabendo, com correcção, a gramática e escrevendo para não dar erros. Hoje, ou melhor, há já vinte ou trinta anos, o ensino das línguas estrangeiras mudou.

Quem não mudou fui eu, por isso, lá vou regressar ao meu tema predilecto, porque, nesta noite, eram quatro da madrugada, acordei com a ideia fixa de escrever sobre os anos à volta de 1941 e de Salazar e da ditadura.

 

Quando nasci estavam a completar-se treze anos de constante presença de Salazar no Governo nacional e quinze sobre o começo da ditadura. Com a idade que hoje tenho apercebo-me de como, quando se é jovem ‒ talvez até se chegar aos cinquenta anos ‒ três lustros é muito tempo. Agora, depois de ter vivido quase oito décadas, tenho a clara noção da exiguidade de doze ou treze anos perante a História. Salazar, em 1941, tinha de governação pouco mais do que dois mandatos de um actual Presidente da República. Era perfeitamente descartável, se houvesse vontade política para tanto! Mas, a verdade, é que não havia…

Não havia essa vontade, segundo o que penso, por vários motivos.

Vejamo-los:

A propaganda negativa que se fazia à volta dos desmandos da 1.ª República era determinante, em especial entre certas camadas da população, para se aceitar a ditadura e o ditador. Todos esqueciam que tais desmandos, em especial durante a Grande Guerra e logo a seguir, até 1926, foram devidos a razões externas a Portugal, pois o descalabro económico em que ficou a Europa arrastou o nosso país, altamente dependente das importações estrangeiras, para um caos financeiro por não ter uma economia competitiva. Acresce que a 1.ª República havia gerado uma fissura grave no tecido social, resultante do anticlericalismo determinado, e que a ditadura estava a refazer a ligação tradicional da Igreja Católica ao Estado.

A apregoada sanidade dos orçamentos do Estado, que, sabe-se lá como, deixaram de ser deficitários para terem saldos positivos. Hoje, melhor do que, talvez, qualquer explicação económica, sabemos como se consegue esse milagre: baixos salários – que na época eram de miséria ‒ desemprego generalizado, falta de investimento em sectores fundamentais como o da saúde ‒ quem era pobre morria sem tratamento ‒, sobrecarga do horário de trabalho, impondo, por vezes, condições quase escravizantes.

Ao mesmo tempo perdeu-se, desde 1926, a liberdade de expressar o pensamento, pois foi instituída a censura prévia tanto a jornais como livros, filmes, peças teatrais ou a qualquer outro espectáculo. Era considerado ajuntamento público a simples reunião de mais de três pessoas na rua.

O medo instalou-se entre todos os cidadãos, porque havia o receio da repressão policial, que era brutal. A pouco e pouco os homens e mulheres, que haviam apoiado a 1.ª República, passaram a desmobilizar-se, deixando de lutar pelos seus ideais. Recordo-me de ter ouvido contar que o meu avô materno ‒ 1.º sargento de cavalaria, republicano, carbonário, antigo combatente em Moçambique e na Flandres ‒, porque, sentindo-se velho, depois da última tentativa revolucionária (julgo que no ano de 1931), foi enterrar, nos baldios da Junqueira, em Lisboa, onde muitos anos mais tarde se construíram os edifícios da FIL, duas ou três granadas de mão, uma pistola e respectivas munições e mais um estoque/bengala e uma soqueira. Era o medo da repressão que se impunha a gente já cansada da luta partidária e da constante conspiração contra os flancos mais reaccionários, dos quais mais se destacavam os senhores da nova situação, chamada, por Salazar, Estado Novo, recordando a designação de um outro conservador, que se adiantou na solução ditatorial, em 1917/1918, chamado Sidónio Pais, que baptizou a sua ditadura com o pomposo nome de República Nova. O curioso é que estes homens ‒ Sidónio e Salazar ‒ tudo o que não queriam era qualquer coisa nova para Portugal, pois pretendiam recuar sempre para soluções velhas e conservadoras.

 

Quando nasci, a Europa estava mergulhada já numa terrível guerra comandada pelas forças nazis, xenófobas e racistas de Hitler. Fugiam para Portugal os refugiados que tinham a sorte, o dinheiro e a possibilidade de conseguir um visto de entrada no país. Aos medos impostos pelo regime juntava-se o medo de entrar na guerra e ver arrastada, no turbilhão, a tranquilidade ‒ fictícia, como deixei evidenciado ‒ conseguida por Salazar e aqueles que o acompanhavam.

Se, por cá, se desejava a paz ao mesmo tempo crescia o medo de perder o pouco que se tinha. Este era o sentimento enraizado nas famílias urbanas ‒ das nossas grandes cidades de Lisboa, Porto e Coimbra ‒ e das famílias miseráveis dos campos onde os padres se encarregavam de tecer louvores ao ditador. Movia-os o medo, face ao que havia acontecido em Espanha nos primeiros anos da década de 30. Movia-os o medo da revolução soviética, vermelha, comunista ou anarquista. Era o medo quem dava sustento à ditadura, a Oliveira Salazar e a todos os situacionistas.