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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

23.08.20

Páginas do Meu Diário - 3


Luís Alves de Fraga

13 de Fevereiro de 2019

Acabei de tomar um duche bem quente. Nem sempre lavo a cabeça, mas, desta vez esfreguei o que me resta de cabelo com um bom champô, para me evitar o aparecimento de caspa. Será pretensão minha, esta coisa da caspa? É que é já mais a parte sem pêlo do que a outra! Isto para quem teve uma farta e rebelde cabeleira é, no mínimo, triste. E lembro-me muito bem, quando era garoto e a minha mãe me lavava a cabeça, por não haver ainda ‒ pelo menos em Portugal ‒ secadores portáteis, enfiava-me uma boina à espanhola para acachapar a hirsuta grenha. E era nessa altura, não estando frio ou a chover, que eu ficava à janela a ajudar a secar a gadelha.

 

Da minha casa, na rua Angelina Vidal, via ‒ passe algum exagero ‒ meia Lisboa. Ainda não existiam prédios em frente. Conseguia vislumbrar, lá longe, a Basílica da Estrela e, mais perto, o Instituto de Medicina Legal, parte dos edifícios do que hoje é a Academia Militar e o campo de prática de hipismo. Lá mais para a direita, avistava uma parte do Parque Eduardo VII.

Mesmo em frente da minha porta, do outro lado da rua, havia uma oficina de metalo-mecânica onde se soldava a electricidade. Era lindo ver aquelas estrelas que saltavam. Ao lado, para baixo, era a entrada de serviço de uma propriedade que se estendia inclinada da Angelina Vidal até à rua Damasceno Monteiro. Pertencia a um coronel do Exército ‒ o senhor engenheiro ‒ cujo filho era aluno do Colégio Militar e a filha, moça mais velha do que eu, talvez, uns sete ou dez anos, saía de casa com botas de montar e boné negro na cabeça, elegante, chamando a atenção ‒ que ela não dava ‒ dos rapazes da zona. Tinham uma vivenda que, para o lado da rua, era de um só piso e não sei se para o lado da quinta ‒ onde cresciam altos pinheiros ‒ não teria mais. Havia, por ali, a aristocracia do dinheiro, pelo menos. Por trás do muro ouvia-se o constante ladrar de um ou mais cães.

Para cima da oficina, no sentido de quem sobe a rua, existia uma simpática vivenda também térrea, arrendada a um major do Exército, que tinha uma filha bastante mais velha do que eu. Era enfermeira e mandava fazer os vestidos à modista de alta costura, que vivia no primeiro andar do meu prédio.

Lá quase à curva, antes de se chegar ao começo da rua da Graça, havia também uma família com um grande casarão virado sobre Lisboa. Cá de fora não se percebia a grandeza da residência. Um dos genros do dono também era militar e veio a morrer, já general, num acidente de aviação em Angola, logo no começo da guerra.

Tudo isto era no lado fronteiro ao prédio onde eu nasci. Na correnteza do lado dos números pares, as famílias ‒ as que eu fui conhecendo ao longo da minha juventude ‒ eram do tipo pequena burguesia, vivendo de ordenados fixos, com os maridos empregados e as senhoras em casa a tomar conta dos filhos, exactamente como acontecia com a minha mãe.

O caso que mais intrigava era o de uma senhora, bem pintada, bem vestida e muito recatada ‒ pese embora o exagero da maquilhagem pouco vulgar naquela época e naquela rua e bairro ‒ divorciada, mãe de um filho, também mais velho do que eu, que não brincava no passeio, e não fazia amizade com nenhum menino da vizinhança. Lá em casa eram três pessoas: a senhora, o filho e a avó do menino ‒ criatura quase invisível.

Ser divorciada naquela época, naquele sítio, era motivo para se baixar a voz, em ar de reprovação, e sussurrar: «Lá vai a divorciada». Habituei-me a pensar que o divórcio devia conter em si mesmo algo de errado, pecaminoso ‒ ainda quando não sabia o que era pecado ‒ e socialmente condenável. Tenho quase a certeza de que não era só eu quem assim pensava e julgava. É que estávamos a viver numa Lisboa bastante fora do seu tempo, do tempo da Europa de então. Era uma Lisboa carregada de provincianismos, preconceitos, julgamentos sociais feitos de boca a ouvido. Uma Lisboa tão capaz de pecar como qualquer outra urbe portuguesa e do mundo, mas onde saber-se do pecado constituía motivo de crítica, falatório e recriminação.

Esta sociedade falsamente púdica, carregada de um clericalismo infiltrado até por baixo das camas de casal, chegando ao tutano dos ossos mais rijos, alimentava-se de um moralismo provinciano incentivado pelo regime político onde a informação era sonegada e o facto normal nos países europeus ‒ exclusão feita à católica Espanha subjugada por Franco, depois da vitória na guerra civil ‒ eram escondidos, para evitar contágios perniciosos e desmoralizantes, por atentarem contra os bons costumes. Lisboa vivia uma aparente moralidade que só o conflito bélico veio abalar.

A minha rua foi o meu primeiro macrocosmo onde aprendi muitas coisas, para as reprovar mais tarde, guardando outras, tidas como boas, para a vida inteira.

Esta foi a cidade que eu amei.JPG

 

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