Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

05.08.22

O tempo das sanções


Luís Alves de Fraga

 

Napoleão Bonaparte, no começo do século XIX, percebeu que uma das formas de enfraquecer e, talvez, poder derrotar a Inglaterra era atacar-lhe o comércio que ela fazia, em grande parte, com a Europa e, por isso, já quase senhor de todo o Velho Continente, determinou que se fechassem os portos marítimos ao comércio britânico. O resto da história é sobejamente conhecida de todos nós para perceber que o imperador dos franceses acabou derrotado, porque um ou dois Estados furaram o esquema e permitiram que se fizesse comércio legal e ilegal com a Inglaterra. E foi, exactamente, tomando como plataforma de ataque o território desse pequeno e pobre Estado, cujo rei se havia refugiado no Brasil, que começou a perseguição ao todo poderoso Napoleão, que já enfrentava a longa marcha de regresso à pátria depois de intentar conquistar a imensa Rússia.

Antes deste bloqueio ‒ talvez o mais famoso ‒ houve o mútuo bloqueio dos produtos ingleses ditado pela jovem República dos Estados Unidos e respondido por Londres contra a entrada de produtos americanos na Ilha dos Reinos Unidos.

Muitos outros entraves comerciais terão acontecido como forma de vergar a vontade de adversários, mas, nos tempos da minha memória, para além da luta submarina dos alemães contra a navegação comercial, na 1.ª e 2.ª Guerras Mundiais, aquele que se tornou famoso, porque tem vindo a reduzir um país e uma população a situações de quase miséria, foi o ditado pelos EUA a Cuba, quando Fidel Castro se revelou um seguidor das doutrinas marxistas. Em boa verdade, Washington empurrou o seu quintal de diversão e corrupção para os braços de Moscovo, que não se fez rogado, e passou a abastecer do possível a revoltada Ilha contra a entrega da produção de açúcar cubano. Talvez mesmo, até, dos celebérrimos charutos, os havanos.

Notável ainda tem sido o bloqueio imposto à Venezuela, que nem medicamentos chega a ter para tratar daqueles que poderiam fugir às garras da morte.

E, agora, de há meses a esta parte, afectando-nos sem excepção, vá de decretar o aperto do bloqueio que já se vinha fazendo à Rússia por causa da anexação da Crimeia (curioso é que, quando era possível, nunca ninguém impôs sanções e bloqueios aos EUA pela conquista da Califórnia ao México) e, a verdade, é que estamos todos a pagar bem caro essas sanções, incluindo os americanos de cujo governo saiu a ideia do sancionamento por causa da invasão da Ucrânia.

Mas disto quase todos sabemos alguma coisa, ainda que não tenhamos percebido bem o quanto nos vai afectar a continuidade de um paradigma que começou, na Idade Contemporânea, com Napoleão. Atenção, hoje já não há nos países industrializados economias de subsistência e, cada vez mais, dependemos de uma produção e de um comércio gerais, ou seja, de uma economia global e, tal como eu ensinava aos meus alunos na universidade, esta coisa a que chamamos economia assemelha-se a um balão cheio de ar: se o amolgamos num dos lados ele deforma-se no outro, podendo, até, rebentar. Cuidado!

 

Mas, das sanções económicas, passámos a usar um outro tipo de acção sancionatória: a proibição de entrada nas fronteiras de um país a este ou àquele fulano a quem os governantes, se pudessem, tiravam ou a vida ou liberdade de movimentos.

E isto, já existia, mas era exclusivo do mundo diplomático onde se escondem agentes secretos sob a capa da imunidade devida aos verdadeiros diplomatas de carreira. Todavia, esta modalidade de acção sancionatória ganhou publicidade e amplitude com a guerra russo-ucraniana. Foram expulsos os diplomatas e interditaram-se oligarcas, confiscando-lhes fortunas identificadas ou identificáveis.

A visita ‒ estranhamente indesejada pela Casa Branca, que se mostrou incapaz de agir sobre a Câmara dos Representantes, quando comummente o faz com toda a facilidade ‒ de Nancy Pelosi a Taiwan, veio gerar uma outra sanção: a de não lhe ser permitida a entrada na China; a ela e a pessoas ligadas a si.

 

Estamos a criar um tipo de vida diferente daquela em que eu cresci e me formei como homem, cidadão, militar e docente. É um mundo com uma dimensão tão ridiculamente pequena que faz jus à ideia do meteorologista Edward Lorenz, professor do Instituto de Tecnologia Meteorológica de Massachusetts (efeito de borboleta), mas, agora, com toda a força de uma verdade social e política e não meteorológica. Foi a idosa Nancy quem, ao pisar solo da ilha Formosa tão desejada pela China continental, provocou um vendaval que quase a derruba, mas que leva Pequim a gerar um tremendo tufão no instável equilíbrio de forças que rege esta Terra cada vez mais minúscula. E há que levar em conta o facto de, na dimensão do nosso planeta, ser enorme a dependência de todos nós da China, essa China que desprezámos por séculos e esse Mao Zedung, que foi risível por causa das ideias expressas no tal livrinho vermelho, mas que, sem ele e tudo o que se passou depois dele, jamais teria unido um povo à volta de um ideal que nos impõe muito respeito por três palavrinhas mágicas perante as quais toda a cautela é pouca: Made in China.