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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

O sonho americano

 

Toda a família do lado do meu Pai tem origem na ilha das Flores, na Fajã Grande, a povoação mais ocidental da Europa. Dois dos irmãos mais novos emigraram para os EUA, sonho de qualquer açoriano pobre ou somente remediado. O tio José emigrou tinha eu pouco menos de quinze anos. As saudades da ilha eram grandes e a adaptação à nova vida, na Califórnia, recordavam a tranquilidade da freguesia distante. Estes foram os motivos que o levaram, mesmo com grande medo da viagem de avião, a voltar aos Açores, com passagem por Lisboa, ao cabo de três ou quatro anos de EUA.

 

Nos breves dias que esteve na capital, eu, jovem curioso, quis perceber algumas coisas da vida na Califórnia, nomeadamente, como era a liberdade democrática no seio de uma sociedade onde prevaleciam, nessa época, valores como o trabalho e oportunidades.

Deve ter-se em conta que haviam passado pouco mais de dez anos sobre o fim da 2.ª Guerra Mundial e a sociedade americana vivia um boom económico fora de série. A Europa ainda apresentava significativos sinais da devastação; nos EUA imperavam os grandes automóveis reluzentes de cromados e pneus pintados de branco, as casas de madeira, confortáveis, com jardins na frente, os primeiros acordes de rock, as primeiras problemáticas de filhos criados sem pai por terrem morrido na guerra, as grandes superproduções cinematográficas de Hollywood, enfim, um mundo com alguns contrastes ainda não imediatamente visíveis entre os Estados do Norte e os segregacionistas do Sul. Eu queria perceber como era viver numa sociedade onde as pessoas não se afirmavam pelo que vestiam, mas pelo trabalho independentemente do género ou tipo.

 

O tio José, pacientemente, dentro das limitações de uma imigração recente, lá foi tentando saciar as minhas curiosidades. Ele não tinha grande experiência de democracia, mas já tinha percebido que estava numa sociedade onde poderia exercer o direito de crítica sem ter receio de denúncia política. Mas, para se perceber o que era o Portugal dessa época distante e, acima de tudo, o elitismo de uma sociedade miserável, o que ele mais evidenciou e, consequentemente, me marcou, foi o facto de poder ir ao banco tratar dos seus depósitos, vestido com o fato-macaco usado no dia-a-dia, e não ser descriminado nem na ordem de atendimento nem na deferência tida para com ele. Na sua ilha distante, nesses tempos, para se ir ao banco ou a uma repartição pública era impositivo trajar como se se fosse à igreja, ao domingo. Portugal era um país de pelintras cheio de preconceitos. Podia ser-se pobre, mas tinha de se parecer, no mínimo, remediado. Isto era, também, uma forma de impor a ditadura e o fascismo.

 

Felizmente tive um tio José que me mostrou a diferença e me possibilitou recordar esta história para a deixar aqui para todos quantos não conheceram o Portugal do obscurantismo poderem fazer dele uma pálida ideia.

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