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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

O saber e a escola

 

Do que recordo da minha infância e da frequência da escola primária posso extrair conclusões para o que conheço de agora, através de algumas comparações básicas.

 

Antes de tudo a escola era um local obrigatório para todas as crianças depois de terem concluído os seis anos de idade e obrigatória era também a aprovação até à chamada 4.ª classe, equivalente agora ao 4.º ano de escolaridade. Claro, havia muitos meninos e meninas que jamais puseram o pé na escola ou, pondo-o, não passaram da aprendizagem mais elementar. Em especial isso acontecia nas zonas interiores do país e, geograficamente, mais recônditas.

 

Fixemo-nos no método de aprendizagem.

Basicamente, tudo era aprendido através do exercício da memória, desde as primeiras letras e números, passando pelo estudo da História, da Gramática, da Geografia e, até da Aritmética, começando por decorar a tabuada das operações elementares. Evidentemente, isto era sempre acompanhado do exercício de uma autoridade quase militarizada – que não foi apanágio do Estado Novo, nem dos princípios fascizantes – que, no mínimo, foi herdada da 1.ª República, no tempo em que se aprendia a cumprimentar, de pé, o professor quando este entrava na sala de aula ou se dirigia ao aluno. O exercício dessa autoridade passava, em quase todas as escolas, pelo uso – às vezes abusado – do castigo físico – a palmatoada – e pelo castigo psicológico – as orelhas de burro, o ficar de pé virado para a parede, a privação de recreio, por exemplo.

 

Olhando para o que se aprendia, posso garantir que, quem fosse  capaz de cumprir as exigências, obtinha, depois de exame escrito e oral, o diploma da 3.ª classe e o da 4.ª classe, documentos essenciais para poder conseguir um emprego, pelo menos, no Estado.

 

O resto do percurso escolar, frequência das escolas industriais, comerciais ou liceais, era já função das capacidades económicas dos progenitores ou encarregados de educação, sendo que as duas primeiras habilitavam, ao cabo de cinco anos, com um diploma, garantindo capacidade para o exercício de uma profissão medianamente remunerada e qualificada; o curso do liceu, na verdade, só interessava para quem quisesse prosseguir estudos universitários. Em face das situação social e económica da época, para continuar estudos, muitos jovens ficavam, na verdade, com a instrução primária ou frequência de pouco mais. Aos quinze anos podiam, legalmente, começar a trabalhar e era isso que acontecia.

A iliteracia começava, então, a fazer o seu caminho, por falta de hábitos de leitura, mas quem os tivesse e praticasse alguma forma de escrita estava, genericamente falando, capacitado para continuar vivendo uma vida, dita, normal: ler o jornal, um romance de quando em vez, ir ao cinema e ler as legendas, escrever cartas e fazer contas aos ganhos e gastos.

 

E agora? Agora, quando falamos com crianças com classificações médias à entrada do chamado 5.º ano de escolaridade, ficamos aterrorizados com a falta de conhecimentos elementares, se comparados com os de há sessenta anos ou mais. Não têm o conhecimento sistematizado da História de Portugal, não dominam a Gramática da língua-mãe, não fazem contas com fluidez, não têm conhecimentos seguros de Geografia, não sabem redigir com coerência um texto com mais de cinco ou seis linhas, não se expressam oralmente com facilidade, lêem titubeando, enfim, não aprovariam no exame da antiga 3.ª classe. Mas, em contrapartida, estendeu-se o ensino até à idade de dezoito anos em condições que a preparação final de um aluno médio é basta deficiente.

 

Em conclusão, parece-me que não se está a saber, há muito tempo em Portugal, aproveitar a democratização do ensino, retirando-lhe cargas elitistas, e, em simultâneo, elevando-lhe o grau de exigência de modo a preparar toda uma geração para enfrentar um mundo em constantes transformações técnicas. A democratização do ensino não pode corresponder a um abaixamento do nível do saber. Isso é uma falsa democratização, dando diplomas sem o correspondente valor em conhecimentos. Os cidadãos de amanhã não merecem que os deixemos impreparados para serem “alimento” de elites económicas e culturais, que farão deles os “escravos letrados” para os servirem.

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