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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

23.01.22

O que nós não queremos…


Luís Alves de Fraga

 

Recordo-me perfeitamente de, quando ia ao cinema na minha meninice e começo da juventude (vamos lá especificar o que quero dizer: “meninice”: idade entre os três e dez anos; “começo de juventude”: idade entre os onze e os dezasseis anos, porque “adolescente”, na década de 1950, era-se lá por volta dos dezassete aos vinte anos, pois, “adulto”, só com vinte e um anos e já não havia recuo possível!), dizia, ficava encantado com o facto de ver os jovens estudantes americanos trabalharem nas férias ‒ e, às vezes, sem ser em férias ‒ para custearem as suas despesas sem sobrecarga dos pais.

Por cá, neste nosso país, a posição cultural era outra: ou se era estudante e ficava-se dependente da semanada ou mesada dos papás ou ia-se trabalhar após a conclusão da instrução primária (mesmo sendo proibido até à idade de catorze anos ‒ os empregadores, pagando pouco, negavam a existência de salário, dando às crianças-trabalhadoras o estatuto de “aprendizes de um ofício a pedido dos progenitores”, donde, sem pagamento).

 

Por volta dos dezoito anos comecei a pedir ao meu pai, nas férias grandes, autorização para arranjar um emprego de um mês para ganhar mais do que a mesada que me dava. A resposta era, invariavelmente, a mesma: «O teu emprego agora é estudar. Estuda, pois mais tarde terás oportunidade de ganhar dinheiro».

Hoje compreendo o receio do meu pai… É que um jovem, naquela altura, vendo-se com dinheiro no bolso, facilmente se transviava dos estudos e enveredava por uma qualquer actividade, da qual nunca mais saía, quando os pais aspiravam a um melhor nível de vida para os filhos do que aquele que eles próprios possuíam. Assim, nunca trabalhei nas férias, nem que fosse a vender enciclopédias de porta-a-porta (actividade muito comum no final dos anos 50 e começo da década de 1960).

E vem tudo isto a propósito de alguma coisa resumível em poucas palavras: nunca achei que trabalhar, em qualquer actividade, fosse desonra; não fazer nada e viver à custa dos pais, isso sim, para mim, era afrontoso.

 

Mas, a entrada na CEE e, depois, na UE, veio, para nós portugueses, alterar hábitos, costumes e atitudes.

Em primeiro lugar, vulgarizou-se a importância de ter um curso superior e, até aqueles que eram especialmente profissionalizantes ‒ os das Academias Militares, os de enfermagem, os de terapeutas, os contabilistas, os agentes técnicos de engenharia, os de professor primário, os de guarda-livros e outros semelhantes, que me não ocorrem ‒ subiram ao patamar da licenciatura, porque, importante, é ter um grau académico; depois, em ritmo mais ou menos acelerado, verificou-se o abandono dos trabalhos braçais, começando nos da agricultura e acabando noutros socialmente conotados com pouca instrução ou de baixo nível; por fim, o interior do país, mais vocacionado para certas indústrias, que foram sendo extintas, e para a agricultura, despovoou-se e, despovoando-se, só restam velhos, casas vazias e leiras sem tratamento por onde cresce tudo o que é silvestre.

 

Eis que, por causa de uma suposta entrada numa sociedade de abundância, por causa da livre circulação de bens no espaço dito ou chamado europeu, por causa da democratização do ensino e da livre-concorrência, começaram a existir trabalhos “destinados” a imigrados das antigas colónias, do Brasil e, agora, para gente vinda de países asiáticos, porque muitos licenciados em coisas que não têm emprego em Portugal aceitam ser “caixas” nos supermercados ou ocuparem-se em trabalhos completamente distintos das suas formações académicas.

 

E trago toda esta crítica à colação somente porque, por razões que não vêm ao caso, tenho utilizado, ultimamente, para me deslocar, os veículos geridos pela Uber. Há coisa de dois anos, em situação idêntica, os condutores destes carros eram “portugueses de gema” e agora, em mais de duas dezenas de deslocações, já topei com cerca de meia dúzia de condutores paquistaneses, indianos, brasileiros e um ou dois que só sabem dizer na nossa língua um esquisito “obrigado”, “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite”, porque o idioma que falam é o inglês.

Queremos dar-nos ao luxo de ser racistas, xenófobos e outras coisas semelhantes? Então assumamos o retorno à agricultura, à formação primária, ao elitismo dos “senhores drs.” e às profissões sem grau académico. Votemos no Chega!

É isso que desejamos? O Ventura é isso que nos promete por trás de todos aqueles chavões que fazem parte de um léxico fascizante e de um elitismo balofo. Mas, atenção, não é só ele! É ele e toda a direita liberal, porque o liberalismo é a porta aberta para os “ascensores sociais” onde não vence o melhor, mas aquele que é capaz de pisar mais cabeças para chegar ao topo da maralha.

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