O que não interessa
Em frente do papel branco fico a pensar sobre o que interessa falar e concluo sobre o que não interessa dizer.
O que me salta é cabeça?
A bastonária da Ordem dos Enfermeiros e as denúncias de aplicação dos restos de vacinas (merda, são restos que têm de ser consumidos rapidamente!), a aflição das famílias que estão a trabalhar em casa com filhos em idade escolar e não têm computadores ou não têm condições para tomar conta deles (toda a gente sabe isto e conhece o drama mas, qual é a solução?), o aperto dos pequenos comerciantes que, tendo a porta fechada, já não possuem capacidade para sustentar o negócio, (prova evidente do fraquíssimo tecido empresarial português), o Chega e o Ventura (já teve tempo de antena em excesso!), os descuidos do Natal (se calhar não foi isso que determinou a segunda vaga!), a ajuda internacional ‒ em especial, alemã ‒ que veio para mostrar como se faz (por que será que na Alemanha tudo funciona melhor do que no resto da Europa?), a ansiedade de voltar a uma vida normal (não se percebe que a normalidade passa pela manutenção desta anormalidade dolorosa?). Tudo isto me atravessa a cabeça, mas gastar neurónios a escrever sobre rios que correm e não chegam a mar nenhum…
Não, não vale a pena!
Interessante seria discorrer sobre as mudanças estruturais necessárias na sociedade, na educação, na saúde, na economia, na segurança depois de estar neutralizada a pandemia, pois ela veio deixar a nu e em carne viva todas as nossas debilidades.
Como nação somos exactamente como um navio que, saído dos estaleiros, vai para o mar, na sua primeira viagem, sem testes de resistência, de navegabilidade, de sustentação, de estiva, de comunicações, de salvamento, de nada, absolutamente nada. E enfrentámos agora uma tempestade que nos deixa muito mal tratados, quase em situação de naufrágio.
Se fossemos bem-avisados como construtores navais, iríamos olhar para tudo, tudo sem falta de nada, para todas as queixas, para todos os problemas reais e inventados pelo comodismo destes passageiros. Iríamos ponderar e corrigir o que deve ser corrigido, destruir o que deve ser destruído e reconstruir o que tem de ser reconstruído. Se assim procedermos (será que somos capazes ou teremos de chamar uma equipa alemã para nos ensinar?) talvez consigamos voltar ao alto-mar prontos, na nossa pequena dimensão, para enfrentar os vendavais que surgirem.
Já devia estar nomeada a comissão para fazer o debriefing (aconselho a consulta do dicionário Priberam) da pandemia!
Mas será que também isso interessa?