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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

17.07.22

O outro pilar


Luís Alves de Fraga

 

Ontem vi e ouvi, na RTP 3, os comentários sobre a guerra na Ucrânia feitos pelo major-general Arnaut Moreira (provavelmente familiar do meu velho professor de Matemática, nos Pupilos do Exército, o major Arnaut) oriundo da arma de Transmissões, que, com as cautelas próprias dos comentadores militares convidados para as televisões, deu, para quem quer perceber as meias-palavras, um panorama pouco optimista para a tropas ucranianas. Não conseguem treinar até ao fim do Verão os homens necessários para operar as novas máquinas de guerra que estão a receber das potências ocidentais ‒ entenda-se EUA, Grã-Bretanha e, provavelmente, Alemanha ‒ e estão a ver criteriosamente bombardeadas pela Rússia várias infraestruturas fundamentais ao esforço de guerra. Por outras palavras, a Ucrânia, no começo do Inverno, quando o terreno for intransitável, estará derrotada e incapaz de fazer um esforço de reconquista do território perdido, ou seja, está em condições de iniciar a ronda de conversações diplomáticas que Moscovo lhe vai impor. Nessa altura, a não ser que deseje ver alvejadas, por mísseis de longo alcance, as cidades mais importantes do país, mantendo uma guerra desigual e que conduzirá à morte e à desgraça de muitos milhares de cidadãos, terá de aceitar, se calhar não todas, mas a maior parte das imposições de Moscovo. Em nome do fim do sofrimento dos ucranianos, Zelensky ou outro por ele, assentirá no fim de uma guerra, mas não, talvez, no fim de um conflito com a Rússia. Até lá, a Casa Branca e o Pentágono, terão de decidir se os objectivos que tinham em vista ao incentivar esta guerra, nomeadamente provar a pouca capacidade militar terrestre da Rússia e a fragilidade da sua economia baseada no petróleo e no gás, para além de afundar a prosperidade da União Europeia, colocando a sua moeda abaixo do valor internacional do dólar, foram alcançados. Se a resposta for positiva, Washington arranjará maneira de levar Kiev a negociar; no caso contrário, poderá arrastar os países da OTAN, a Rússia e seus aliados para um atoleiro do tipo daqueles que os EUA souberam arranjar pelo mundo fora desde o fim da 2.ª Guerra Mundial. Mas, curiosamente, levará, em primeiro lugar, atrás de si a Grã-Bretanha.

 

Na verdade, relendo Henry Kissinger (Anos de Renovação, 1999, no original, e 2003, na tradução portuguesa) topa-se, escrito preto no branco, que a Grã-Bretanha já não logrando, por perda de poder militar, influenciar decisivamente nas decisões mundiais, optou, no dizer do experiente político e professor, por «(…) unir-se politicamente aos Estados Unidos mais do que à Europa. E para indicar que se tratava mais do que uma aliança, apelidou esta sua opção de operação especial». E continua com todo o despautério: «Só uma sociedade moralmente forte e coesa podia ter levado por diante este feito notável de preservar a identidade através de um acto de subordinação efectiva».

Quer-se mais clara a forma como é entendida, nos EUA, a relação de Londres com Washington?

E não se diga que se tratou de uma posição pontual como resultado do final da 2.ª Guerra Mundial, porque os factos, ao longo dos anos, têm demonstrado, até à saciedade, a existência dessa subordinação efectiva como enfaticamente lhe chama Henry Kissinger, de tal modo que lá está a Grã-Bretanha na linha da frente a fornecer armamento à Ucrânia, tal como esteve, na mesma linha, aquando da invasão do Iraque e do Afeganistão. Claro que o Pentágono retribuiu, antecipadamente, com baixo valor, a subordinação efectiva de Londres quando foi da reocupação das Malvinas.

Naturalmente, Paris e Berlim não querem seguir a pegadas de Londres, mas vêem-se tão dependentes da falta de uma política de defesa e segurança marcadamente europeia que, em determinados momentos cruciais, têm de ir atrás da Grã-Bretanha para não perderem os dois pilares que, no momento da verdade, podem ajudar o Velho Continente.

 

É certo que a circunstância oportuna para uma viragem da política de defesa europeia passou há muito, quando se deu a implosão da URSS e a possibilidade de pôr fim à existência da OTAN. Nessa altura, se tivesse havido o golpe de asa necessário, tinha sido o momento de puxar a nova Rússia para a Europa através de vastos acordos comerciais vantajosos para todas as partes. Mas, o que terá pesado, para além da estratégia americana, foi a existência de uma pesada e bem paga burocracia dentro da OTAN, que oferece a civis e a militares chorudos cargos bem pagos e altamente prestigiantes para quem dá importância a esse tipo de prestígio. Agora, estamos reféns da Aliança com todo o tipo de vantagens ‒ por impreparação das forças armadas e de segurança europeias ‒ e de desvantagens. Temos uma guerra à porta de casa e o risco de, por razões que são alheias aos verdadeiros interesses europeus, nela nos vermos envolvidos. Só vejo em Macron o único político europeu de peso capaz de manobrar na sombra para gerar aquilo que devia já existir: uma política europeia capaz de salvaguardar o continente das influências que não lhe trazem vantagem imediata. Vamos ver o que o tempo é capaz de obrar.

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