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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

10.08.22

O milho para os pombos


Luís Alves de Fraga

 

Já aqui escrevi sobre o primeiro navio que tendo saído de Odessa chegou à costa da Turquia carregado de milho. O impacto foi tão grande que o Secretário-Geral da ONU num discurso fez referência a essa conquista. E o navio, depois de ser inspeccionado por uma comissão constituída para tal efeito (verificar se a carga não incluía armamento) seguiu ao seu destino, ou seja, o Líbano.

De certa maneira, uma parte do mundo deveria estar a festejar este cessar-fogo marítimo entre a Ucrânia e a Rússia. Mas a notícia caiu como uma bomba: o comprador libanês, dado o atraso da entrega, desistiu da carga.

Segundo os jornais e as televisões, não houve, nesta decisão, qualquer tipo de intervenção do governo do país de destino; a decisão deve-se exclusivamente ao importador/comprador. O navio fez meia-volta e foi fundear ao largo da costa da Turquia sem saber o que fazer da carga. Há-de ser para alguém, nem que seja para alimentar os pombos que possam andar por perto ou que se façam ao mar!

 

Eu faço de conta que acredito na explicação dada e fico à espera da melhor oferta para fazer seguir o navio para um qualquer destino, mas alguém terá de pagar as despesas do armador e a compra do cereal aos produtores ucranianos bem como ao armazenista, ou seja, aos donos dos silos. A vitória diplomática está conseguida, o resto, vamos ver.

Mas será assim tão simples?

Não nos esqueçamos que o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, logo após a assinatura do acordo, andou por África e as redes de influência entre Estados e comerciantes pode ser grande e terrível. É que sair os navios é uma coisa, vender a sua carga é outra e detectar, com satélites espiões, a ou as rotas de saída das embarcações é outra coisa bem mais importante do ponto de vista militar… Por onde sai um navio pode entrar outro e a esquadra russa do Mar Negro não está lá para fazer número. As minas marítimas não se movimentam facilmente de uma rota para outra.

Se tivesse de estar sentado no estado-maior militar, em Moscovo, mandaria juntar informações sobre saída dos cargueiros, porque o Outono está aí à porta e as operações terrestres começam a tornar-se difíceis por causa da lama, dando oportunidade a que certas operações anfíbias se possam fazer no que resta livre da costa da Ucrânia.

Estou a imaginar ofensivas russas? Provavelmente sim, mas quem não pode caçar com cão, caça como o gato… Espera o melhor momento para, emboscado, cair sobre a presa.

Mas já se noticiam ataques da Ucrânia sobre a Crimeia. O que estará a tramar o estado-maior ucraniano? É que, do ponto de vista moral, enquanto os russos ao invadirem a Ucrânia estão, na prática a invadir um país estrangeiro, o mesmo não acontece quando as forças de Kiev atacam a Crimeia, pois os seus habitantes são ucranianos. Começamos a estar assim perante uma guerra, também civil.

 

E, entretanto, o milho é mais uma operação de diversão (como se diz em linguagem militar) para prender as atenções de toda a gente e distrair daquilo que pode vir a tornar-se muito importante para os russos: a guerra no mar ou partindo do mar.