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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

01.10.22

O expoente da loucura informativa


Luís Alves de Fraga

 

Pronto, Putin criou todas as condições para poder sair de cabeça levantada do resultado bélico que conduziu ao confronto entre a Ucrânia e a Rússia. Se a tal forma “especial” de fazer a guerra era libertar uma parte do povo russo-ucraniano da repressão neonazi do governo de Kiev (o que não era mentira nenhuma) esse objectivo está, na prática, alcançado desde que foi reconhecida por Moscovo a independência dessas regiões, que vão passar a fazer parte da Federação Russa.

Se a consulta popular ‒ referendo ‒ foi uma farsa ou não, pessoalmente pouco me interessa e nem devia preocupar as grandes capitais do mundo dito ocidental, pois, também, e como mero exemplo, a “nossa” Constituição Política, que em 19 de Março de 1933, “legitimou” o Estado Fascista Português, foi aceite pelos portugueses e pelas grandes capitais do Ocidente ‒ as mesmas que condenam, agora, o referendo russo ‒ e “só a viram ilegítima” quando os Capitães de Abril a “derrotaram”, através de um acto revolucionário, também é legítimo o referendo na região do Donbass.

A legitimidade das consultas populares para os povos que as fazem e para os que as reconhecem resulta sempre do momento e dos interesses estrangeiros, por isso elas são, para mim, sempre legítimas, porque a sua ilegitimidade é absolutamente transitória e oportunista.

Assim, como nos filmes americanos do Far West, a “cavalaria” russa, “salvou” do massacre “índio” os seus amigos e aliados! Nada mais. Tudo o resto tem sido intoxicação informativa levada a cabo pelos EUA, de modo a justificar um ajuste de contas entre Washington e Moscovo.

Mas um ajuste de contas que não se limita a derribar a importância do maior país, em extensão territorial, do mundo; ele vai mais longe, porque pretendeu e conseguiu estilhaçar a economia da União Europeia, quebrando um bom entendimento de Berlim e Bruxelas com Moscovo, graças ao fornecimento de gás e petróleo russos a preços concorrenciais. Essa quebra resultou de dois envolvimentos que os políticos norte-americanos souberam explorar: a dependência da segurança e defesa da Europa da OTAN (que sempre foi uma extensão da política americana no Velho Continente e, por arrasto desta dependência, a imposição de sanções económicas à Rússia. E onde é que essas sanções deveriam recair? No corte da compra de matéria-prima energética a Moscovo! A armadilha fechou-se sobre a Rússia e sobre a UE.

 

Para dar verosimilhança a toda esta manobra estratégica foram só precisos dois passos: fazer de um actor de segunda classe Presidente da Ucrânia, erguendo-o ao papel de nacionalista e patriota capaz de iniciar um ataque massivo aos povos russo-ucranianos do Leste da Ucrânia e convencer, através de uma forte campanha de contra informação, que os russos eram os agressores, por desencadear uma invasão da Ucrânia à qual chamaram, com legitimidade “operação militar especial”, pois, na verdade, estavam a libertar povos cuja identidade cultural era mais pró-russa do que ucraniana, donde, não fizeram guerra à Ucrânia, mas defenderam quem carecia de ser defendido numa guerra civil desencadeada por Kiev.

 

Como tudo não é perfeito, os EUA deixam, agora, muito clara a “assinatura” da sua intoxicação contra informativa, fazendo crer ao mundo que os russos, desesperados, sabotaram os seus próprios gasodutos de fornecimento de gás à Europa!

Nem um louco ‒ e Putin está a dar provas de que não sofre de qualquer patologia mental ‒ mandaria sabotar uma sua infraestrutura caríssima, irreparável nos próximos cinco ou seis anos, perdendo, talvez para sempre, a possibilidade de refazer um circuito comercial altamente rentável. As grandes potências não fazem estratégia de curto e médio prazo (isso deixam para as pequenas e pobres potências que preferem o lucro imediato do que o de longo alcance ‒ isso faz-se em Portugal); as grandes potências fazem estratégia a pensar nos próximos cinquenta ou cem anos. Veja-se, o exemplo da própria OTAN.

 

Mas, o curioso no meio disto é que, na Europa e nos EUA, há quem não tenha a mínima cultura económica, política e estratégica para perceber o embuste em que as forças do Pentágono nos querem fazer cair e, então, já inventam que a Europa pode ficar sem ligações via Internet porque os russos cortariam os cabos submarinos por onde transita a fibra óptica! E os serviços secretos russos iam perder uma excelente forma de recolha de informações dando cabo dela!

Na Casa Branca devem pensar que têm o monopólio da inteligência!

 

O grande erro europeu foi o colocar-se, desde a 2.ª Guerra Mundial, sob a protecção da OTAN, tal como o deixa perceber o especialista e eurodeputado espanhol, Nacho Sánchez Amor (Política Exterior, n.º 229, Setembro/Outubro. “Por una verdadera política diplomacia europea”. Madrid: Estúdios de Política Exterior, ISSN 023-6856, p. 32-38) incapacitando-se de ter uma diplomacia, uma força de segurança e defesa e um serviço de informações único e autónomo dos Estados integrantes. Agora, vai-se tarde e só daqui a alguns anos poderemos contar com os primeiros alicerces.

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