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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

27.08.22

O Buraco Negro


Luís Alves de Fraga

O Buraco Negro

 

Há mais de uma semana, salvo erro, na CNN Portugal, ouvi uma muito ponderada observação feita por um major-general do nosso Exército, sobre a qual fiquei a pensar. Dela vos trago notícia, não porque seja original ‒ já tinha lido o mesmo em jornais estrangeiros, que apostam na imparcialidade das suas considerações ‒, mas porque só nos vamos recordar do assunto quando, como se diz em língua portuguesa popular, rebentar a bronca.

Chamava o oficial-general a atenção para um aspecto extremamente sensível: o do fornecimento de armamento à Ucrânia por parte dos EUA, do Reino Unido e de outros países europeus que está sob rigoroso controlo durante todo o percurso até chegar ao país de destino e, depois, entra naquilo que ele designou por buraco negro. O que é que isto quer dizer? Vamos ver.

 

Em primeiro lugar, quer dizer que mal é entregue o armamento e as munições pode uma parte seguir para os depósitos das forças armadas ucranianas, mas outra muito significativa pode cair nas mãos das máfias do tráfico de armas, que as farão chegar a quem pagar bem. Estas máfias não são fantasias dos estúdios cinematográficos de Hollywood nem dos das empresas que trabalham para a Netflix; elas existem e fazem chegar todo o tipo de armas a todos os tipos de compradores, independentemente do conflito ou das ideologias defendidas. O negócio está em primeiro lugar. É que a lógica deste género de comércio funciona como a do dono da mercearia aqui defronte da minha casa: os vizinhos são velhotes, já sem carro nem forças para irem fazer grandes compras aos mais distantes supermercados, nem talvez dinheiro para fazer abastecimentos vultosos, então, ele acresce aos preços praticados nos hipermercados, uma taxa que pode variar de 20 a 50% do preço da prateleira nesses grande revendedores. Para ele é a inflação, para os velhotes aqui da rua são as carências ditadas pela idade e pelas suas condições.

Os senhores das guerras, que se espalham por esse mundo fora, condicionados pela ilegitimidade dos seus motivos, não discutem preços do armamento desde que seja de última geração e ninguém ande atrás dele. Quem enriquece? Tal como o merceeiro da minha rua, o intermediário que faz chegar às mãos do traficante o armamento desviado do fim para que foi enviado para a Ucrânia.

Cá está o buraco negro, cá estão os fabricantes de armas, cá estão os traficantes e muita gente a enriquecer à custa de uma indústria que, no Ocidente, em especial nos EUA, não é controlada pelos poderes dos Estados.

 

Curioso é que, ontem à noite, o mesmo oficial-general, na mesma estação televisiva, chamava a atenção para o facto de nos EUA já estarem esgotados alguns stocks de armamento ou de munições e as fábricas só os conseguirem repor daqui por três anos.

Claro, o entrevistador de serviço fez todos os esforços possíveis para interromper a explicação isenta e independente do oficial, com o evidente intuito de não deixar passar uma informação que nos colocaria sérias reservas se fosse explorada até ao fundo, pois ia-nos abrir a porta da pergunta que não interessa fazer: «Qual, afinal, o objectivo do apoio à Ucrânia?» Pior seria a pergunta: «Qual o objectivo da Ucrânia desejar arrastar todos os Estados da Europa e os EUA para uma guerra com a Rússia?»

Se para a primeira questão nós temos, mais ou menos, consensualizada a resposta, para a segunda, quase ninguém se interroga, nem tem resposta na ponta da língua. Sabeis o porquê? É que todos, desde há mais de seis meses, temos sido condicionados na forma de ver e compreender a Ucrânia. Para nós, o governo ucraniano está a defender-se de uma traiçoeira invasão, feita contra o Direito Internacional, determinada pelo ditador Putin. Não cuidamos de analisar a fundo quem é e quem representa o Presidente Zelensky; o que é que ele defende, que Ucrânia é aquela que ele diz estar a defender, que interesses lhe determinam o comportamento? É que, como eu já disse repetidas vezes e ontem afirmou o oficial-general em plena televisão, aquela guerra é, acima de tudo, uma guerra civil. E, para prová-lo, basta ver que só agora, em Kiev, se estão a substituir nomes de ruas e avenidas que recordavam heróis russos por nomes de individualidades ucranianas… e, todavia, passou, há dias, o 31.º aniversário da independência. Em Portugal, no dia 26, 27 ou 28 de Abril de 1974, a ponte Salazar já tinha sido rebaptizada!

 

Para além dos naturais efeitos que uma guerra provoca, o actual desequilíbrio económico que se faz já sentir com grande peso no continente europeu devia levar-nos a pensar nos valores que estão em jogo em termos globais e não só naqueles que afirmam estar a defender o Ocidente e todos nós de algo que não nos afligiu nos últimos trinta anos. Quem vai ganhar com este conflito?