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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

04.06.21

O assessor do ministro e a Estratégia Nacional


Luís Alves de Fraga

 

Bruno Cardoso Reis, nome que agora se tornou conhecido de alguns portugueses por causa da polémica proposta do ministro da Defesa Nacional, por ser autor de um texto publicado pelo Instituto de Defesa Nacional (IDN) no qual vem em auxílio de Gomes Cravinho, é também assessor daquele membro do Governo, e, para além disso, a ele se deve um livrinho intitulado Pode Portugal ter uma estratégia?, dado à estampa, em 2019, através da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Mas, quem é Bruno Cardoso Reis?

 

Vasculhando-lhe o currículo visível na Internet, sabe-se que, em Portugal, é licenciado em História, pela Universidade de Lisboa (1995) e, mestre em História Contemporânea, pela mesma universidade (2000) ‒ acrescente-se que sob a orientação de António José Telo, o que, para mim, coloca algumas dúvidas metodológicas ‒ e, em 2003, na Universidade de Cambridge, obteve novo grau de mestre em Historical Studies e, logo de seguida, em 2008, agora na School of Social Sciences and Public Policy, King’s College London, tornou-se doutor em War Studies, que, traduzido à letra, será doutor em Estudos da Guerra, mas, entre nós, apresenta-se como doutor em Segurança Internacional (?).

Fomos mais longe e, de um currículo recente, sabemos que é autor de dez artigos publicados em revistas científicas (nacionais e internacionais), de dois livros (um dos quais é o pequeno volume já referenciado), de cinco capítulos em livros diversos, de um outro artigo numa publicação sem matriz especial, que apresentou cinco comunicações em eventos científicos e foi (é?) editor de uma revista científica.

Aqui temos, em linhas gerais, o esquisso do labor intelectual deste assessor, que é também, professor convidado do ISCTE.

Percebe-se que, se estivéssemos no século XVIII, ele seria um estrangeirado, o mesmo é dizer alguém que se identifica muito com o pensamento estranho a Portugal e se arvora em veículo das ideias que se defendem lá por fora. Mas estamos no século XXI, num tempo em que a paroleira nacional aceita como muito bons todos os que apresentam graus académicos conseguidos em instituições universitárias estrangeiras, com clara desvalorização dos que os obtém nas congéneres nacionais.

De certa maneira ‒ e não é por acaso ‒ lembrei-me do bacharel em Direito (feito doutor ao abrigo de uma lei ‒ § único do Art. 92.º do Decreto 3370-C de 15 de Setembro de 1917 ‒ capaz de converter em mestre um simples aprendiz) António de Oliveira Salazar (também Alves da Silva por pseudónimo), que escreveu uma série de artigos no jornal católico Novidades sobre finanças públicas, conseguindo endrominar os militares conservadores, que fizeram o 28 de Maio de 1926 (para pouca coisa mais tinham saber), que o elevaram à condição de ministro das Finanças com poderes ditatoriais. Nessa época, os doutores eram gente de ciência neste país de analfabetos!

 

Mas deixemo-nos de divagações e voltemos a Bruno Cardoso Reis e ao seu livrinho Pode Portugal ter uma estratégia?, publicado em Junho de 2019.

Com 13 centímetros de largura, 20 de altura e 111 páginas de texto, através de uma análise breve da História de Portugal, procura evidenciar, usando, às vezes, caminhos errados ou distorcidos, a constância de uma grande estratégia ‒ pessoalmente, prefiro chamar-lhe estratégia nacional, e não é despicienda a razão da minha escolha ‒ portuguesa.

Talvez o mais grave erro que comete do ponto de vista do domínio da gestação da estratégia resulte do facto de aceitá-la como produto acabado ao contrário de lhe explicar a verdadeira origem.

Realmente, para que haja estratégia têm de coexistir antes dois elementos básicos e seminais: um conflito, declarado ou potencial, e um objectivo ou, se lhe quisermos dar outra designação, um interesse. Só quando se conjugam estas duas condições é que se pode começar a definir uma estratégia.

Para se falar da estratégia nacional portuguesa (ou grande estratégia) têm de se pesquisar os interesses e os conflitos. A estratégia não nasce da vontade de um poder ‒ seja o monarca, o príncipe, o governo, o parlamento ou o comité central ‒ nasce de vontades colectivas que têm em si mesmas um projecto ou aderem a um que lhes seja interessante.

Ora, a grande falha de Bruno Cardoso Reis, é a de, em última análise, admitir que a grande estratégia ou estratégia nacional nasce num órgão de poder, seja governo, presidente, comité central, parlamento ou ministério da defesa! Ele esquece que o sustentáculo desse órgão de poder está condicionado, no fim da linha, pela geografia e pela vontade de quem executa a estratégia: os homens que nada sabem desse assunto. Foi por causa disso que a URSS desapareceu, mas não desaparece a luta entre o poder terrestre e poder naval na Rússia; foi por causa disso que houve a descolonização portuguesa, foi por causa disso que Napoleão foi derrotado já depois de ter voltado da ilha de Elba, foi por causa disso que os EUA tiveram de sair do Vietnam. E continuaria sem fim a referir falhanços estratégicos que este autor considera que foram traçados pelo poder, tivesse ele a forma política que tivesse.

 

O mais curioso de tudo é que Bruno Cardoso Reis com o livrinho de 2019, conseguiu vender a ideia, pelo menos a Gomes Cravinho e, por maioria de razão, ao almirante Silva Ribeiro, que, por certo, têm apoio em mais alguns entendidos nestas coisas de estratégia nacional.

‒ E qual foi a razão para ter vendido bem este produto?

‒ Muito simples! Demonstra que é necessário dar recheio ao Ministério da Defesa e que é necessário criar um órgão, ao nível do poder executivo, que tenha, à nossa escala e dimensão, as funções do National Security Council (p. 84).

Claro que é difícil não concordar com esta ideia, mas o que me leva a estar em oposição ao teórico Cardoso Reis é o facto de ele entender que a nossa grande estratégia ou, para mim, estratégia nacional tem de estar dependente da estratégia da NATO e da da União Europeia, quando se for capaz de definir uma, englobando todos os Estados! Só assim se justificam as afirmações do ministro quando critica os velhos generais e os acusa de estarem presos ao passado em vez de olharem para o futuro.

 

O erro do ministro, do seu assessor Cardoso Reis e de todos os seus conselheiros é um só: aquele de enforma a obra a que me venho referindo: uma estratégia nacional ou grande estratégia define-se não em função da vontade de um órgão ou de uma pessoa, mas sim em função do interesse nacional que está plasmado nas ameaças declaradas ou latentes e nos objectivos nacionais.

Ora, estes objectivos têm, imperiosamente, de ser nacionais, ou seja, tem de representar a média da vontade da Nação, e a Nação somos todos nós e jamais os burocratas do Restelo, da NATO e de Bruxelas!

Nunca ninguém nos auscultou sobre a manutenção na NATO e sobre a adesão à CEE, depois à União Europeia e, por fim, à moeda única!

Estou farto de ser enganado pelos políticos nacionais que, agora, até se propõem reduzir a influência dos generais chefes dos estados-maiores das Forças Armadas para centrar num órgão distante daqueles que estão nas fileiras e dão sentido à existência das mesmas.