No Outono cai a folha ‒ 05
Por várias vezes, já aqui deixei dito que nasci num lar católico e que a minha primeira catequese me foi ministrada pela minha mãe. Lentamente ensinou-me as principais orações ‒ o Pai Nosso e a Avé Maria ‒ até que, andando já eu na escola e sabendo ler, me chegou às mãos um resumo do Novo Testamento, ilustrado com alguns desenhos e, recordo-me perfeitamente, quanto mais eu lia mais vontade nascia em mim de ter vivido no tempo de Jesus. Aquela Figura atraía-me por tudo o que fez, disse e sofreu. Naturalmente, o objectivo específico do livrinho era esse mesmo: atrair para a religião católica romana os meninos e meninas que lessem o texto, mas, até hoje, fiquei com a dúvida que jamais terá resposta: em todos terá despertado este estranho desejo de ter sido contemporâneo de Jesus? Se acaso, por um passe de magia, eu pudesse ter contemporâneo de Jesus teria sido seu seguidor ou, até mesmo, seu apóstolo? Essas dúvidas, essas têm vida em mim, talvez mais de setenta anos de idade.
Fui, na devida altura, para a catequese e fiz a primeira comunhão e, mais tarde, o crisma, sempre na belíssima igreja dos Anjos, em Lisboa. Tal como também já aqui contei, entrei para o Instituto dos Pupilos do Exército e, por razões várias e noutra altura relatadas, tornei-me um católico praticante, o que, no ambiente do internato, era assaz difícil, pois desconfiava-se que o padre capelão tinha os seus informadores e, porque era forte a amizade entre ele e o Director, este ficava na posse de dados que poderiam ser utilizados em momentos disciplinares muito vulgares e comuns. Os alunos católicos que se confessavam com frequência e comungavam eram apelidados, pelos outros, com o epíteto de “bufos” e era difícil para um garoto de catorze ou quinze anos suportar uma tal perseguição. Começou a valer-me o facto de ser espigado e conseguir ameaçar fisicamente aqueles que, da minha idade se atrevessem a chamarem-me bufo. Não era nem nunca fui. A minha fé chegou ao ponto de, nos dezasseis anos, admitir a hipótese de transferir-me dos Pupilos para o seminário; foi o meu pai, como contei antes, quem me impôs a condição de acabar o curso e, depois, se se mantivesse a vocação, frequentasse o seminário maior. Todavia, a minha fé também me levava ao extremo de impor-me penitência, face a pecados maiores, como não comer pão durante um dia ou não comer fruta numa das refeições.
Dobrados os dezasseis anos tudo se tornou mais fácil e cheguei católico praticante de comunhão diária à Academia Militar, pois, ao ter descoberto o amor que pode levar um jovem rapaz a apaixonar-se por uma menina, a vocação sacerdotal desapareceu. No primeiro ano da Academia ainda fui membro da Juventude Universitária Católica (JUC), mas, depois, esqueci pecados, confissões, comunhões e tudo o mais, até me casar, pela Igreja, em 1965.
Na Páscoa de 1967, já em Moçambique, confessei-me e comunguei pela última vez. Mas a ideia de Deus continuou presente em mim. Todas as dúvidas me assaltavam de tempos a tempos, no meio de uma vida que, em Outubro de 1969, sofreu a primeira grande mudança: matriculei-me na Universidade e comecei a estudar matérias que me ajudavam a perceber melhor a minha situação interior, perante mim e perante a sociedade. Passei a identificar-me como agnóstico e nunca como ateu.
Nas noites de África, nos distantes anos de 1967/1969 e 1973/1975, quando não havia lua cheia, olhando as estrelas, já eu pensava que, sendo o céu infinito, tudo aquilo não poderia ser resultado de um qualquer fenómeno físico. Por trás do infinito tinha de estar um criador. E, deste modo, foram nascendo dúvidas sobre dúvidas, que a minha juventude de então associada aos muitos afazeres e aos saltos das hormonas atiravam para segundo plano, o mesmo é dizer que mandava às ortigas a minha fé anterior e à fava a ideia de Deus.
Ouvi contar que muitos soldados feridos gravemente, no mato, à espera da morte chamavam pela mãe e muitos misturavam a figura da mãe com a de Deus face ao sofrimento de pernas decepadas ou intestinos expostos aos olhos dos socorristas que, na falta de solução, lhes aplicavam morfina enquanto esperavam a chegada do helicóptero que levaria aqueles gritos de dor para outros lados, talvez mais seguros.
Se o medo de morrer tivesse prevalecido entre a tropa, todos teríamos desertado e eu não teria escolhido ser militar. Muitas vezes durante esses muitos anos de dúvidas constantes eu arrisquei, conscientemente, a vida em coisas que não chegavam a valer a importância de um caracol.
É a dúvida o motor para a modernidade, para o conhecimento, para o desenvolvimento; se os europeus, no século XV, não tivessem posto em causa as explicações teocêntricas, onde estaríamos agora? O Homem procurou, partindo de Deus, a explicação para a obra de Deus e, por enquanto, já chegou a microscópios electrónicos que desvendam o átomo na sua composição perfeita, conhece o ADN, relacionando familiares com antepassados de há séculos. Foi sempre a dúvida que deu para perceber o segredo da criação e quanto mais se conhece mais cientes ficamos da sua complexidade.
Para mim, é fascinante esta descoberta… qualquer descoberta, porque sempre procurei a verdade, mesmo ‒ e especialmente ‒ quando me empenhei na reconstituição do passado, que nunca é exactamente aquilo que nos parece à primeira vista.
É neste Outono da vida que, depois de todas as exuberâncias da Primavera e Verão, quando cai a folha, vale a pena tirar as conclusões para o Inverno das despedidas! É o que estou a tentar fazer.
