Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

07.06.22

Morrem generais


Luís Alves de Fraga

 

Todos os dias, em alguma parte do mundo, morre um general, quase sempre vítima da idade avançada ou de doença grave; é raro que morra em campanha em consequência de um conflito bélico.

Na verdade, um oficial militar ou morre cedo, na flor da vida, em combate, ou vai progredindo nos postos e, um belo dia, já general, morre de uma qualquer doença, porque de um projéctil é quase impossível acontecer. Terei de ser mais correcto: era quase impossível acontecer.

Rectifiquei a afirmação inicialmente feita, porque ela era verdadeira até à ocorrência da guerra russo-ucraniana. Agora morrem, confirmados por Moscovo, generais em elevado número (não sei quantos já foram, pois não me vou dar ao trabalho de os contar e, mesmo que o fizesse, esse número acabaria desactualizado até ao final da campanha). Também já começaram a morrer generais ucranianos.

 

‒ Como é que se explica isto, num tempo em que os generais já não avançam à frente das tropas, montados em belos alazões, a comandar heróicas cargas de cavalaria?

Pois, a explicação é simples, se os generais não forem assassinados por um qualquer meliante que se movimente à-vontade no quartel-general.

Em primeiro lugar, ficamos com a ideia de que morreram só os generais por causa da forma como as notícias são dadas, pois, quase pela certa, com os generais morreram mais uns quantos militares de várias graduações. Vamos, então, quebrar o mistério, se é que ele existe... pelo menos, silêncio existe!

 

Nos dias que correm, aquilo que nos filmes americanos nos parece ficção científica, em termos de espionagem feita a partir de um satélite colocado algures numa órbita à volta da Terra, a cem, duzentos ou trezentos quilómetros de distância da superfície a observar, constitui a mais pura realidade. E a capacidade de observação vai a pormenores absolutamente incríveis; se necessário, até, matrículas de viaturas.

Ora, por mais que os russos e ucranianos tentem disfarçar, camuflar ou esconder os seus postos de comando, haverá sempre um indício que não vai escapar aos olhos habituados dos analistas espiões; é um automóvel que mudou de posição, uma entrada e saída de graduados mais frequente, é uma nova antena de comunicações, é aquilo que nem a nossa maior capacidade imaginativa pode cogitar. Mas, tudo é passível de fornecer a peça que compõe o quadro e dá verosimilhança às hipóteses colocadas pelos serviços de informações militares.

Obtida a certeza com margens de erro muito baixas, basta fornecer as coordenadas do local à artilharia que se pretende ajudar. Os mísseis de alcance médio têm sistemas de captação do alvo extremamente sensíveis que colocam a carga explosiva no objectivo e no momento certo, e lá vai para os anjinhos mais um general e todo o seu estado-maior incluindo o pobre do condutor, o soldadito que só serve para estafeta entre escalões de comando e mais todo o material de comunicação que por ali estiver montado.

 

A morte de um general é importante, mas não por se tratar de um general; é importante porque liquida, ao mesmo tempo e de uma só vez, um estado-maior e todo o complexo sistema de comunicações que ligam o comandante aos escalões que lhe são superiores e aos subordinados. E, deste modo, temos uma parte da tropa sem orientações, sem decisões e sem ordens, que passa a ficar disponível para simplesmente resistir da maneira que conseguir e aventurar ou que os escalões inferiores de comando forem capazes de, manobrando, minimizar as perdas sob o fogo e a chamada exploração do sucesso (porque a morte de um general e do seu estado-maior é uma vitória pontual que deve ser explorada de imediato) levada a efeito pelo inimigo nas próximas horas.

 

Por cada morte anunciada de um general podemos concluir que os Estados com satélites espiões na órbita da Terra estão a fazer a sua guerra através de interpostas pessoas. Ora, quando as normas da guerra estão a ser momento a momento modificadas, quer a comunicação social chamar-nos a atenção para os horrores provocados por uma das partes, levando-nos a condená-la por crimes contra a humanidade ou por crimes de guerra? Valha-nos Deus, que raio de medidas, de pesos e balanças é que se usam para ponderar o que é crime e o que não é?

Está um general, com o seu ajudante-de-campo, o seu chefe de estado-maior, a comer a magra ração de combate que a logística lhe consegue fazer chegar à mesa e apanha com uma bojarda em cima da cabeça que o põe imediatamente a falar com o S. Pedro enquanto os restantes nem percebem que já não fazem parte de exército nenhum (a não ser, provavelmente, do exército celestial) e isto é guerra, normal, justa e correcta; mas, um pobre cidadão, que está no seu apartamento a beber um copito de vodca, para esquecer as agruras de ouvir os disparos dos carros de combate que, avançando, invadem a pequena cidade onde vive e, no mesmo momento, no andar de baixo, um patriota, armado de uma kalashnikov, cujos projécteis fazem cócegas na blindagem do poderoso veículo, dispara rajadas sobre rajadas, levando o chefe de carro a dar ordem para apontar a peça para o prédio e mandar pelo ar o patriota e o seu vizinho, que esperava tranquilamente que os soldados resolvessem o diferendo, já é vítima de um criminoso guerra!

 

Não, não se queira que neste tempo, com estes meios, que a guerra tenha a delicadeza, a bravura e a honradez de um torneio de cavaleiros medievais, porque se é isso que se pretende fazer acreditar junto daqueles telespectadores, que, calmamente, ao serão, vêem a guerra na sua sala de estar, estão a tentar (e quase sempre conseguem) enganar-nos com mentiras grosseiras.

A guerra é uma coisa feia, mas não a tornem mais feia, contando-a cheia de mentiras!