Mimetismos e Mentiras
O Dicionário da Porto Editora on-line dá cinco explicações ou significados para a palavra mimetismo, dos quais me vou fixar em somente dois: em sentido figurado, «imitação inconsciente pela qual alguém adopta o comportamento, a linguagem, as ideias daqueles entre os quais vive» e «disfarce».
Politicamente há muita gente que se serve de mimetismos, o mesmo é dizer disfarces, para parecer aquilo que não é!
Na cena de um filme visto há muitos anos, recordo a queda de Mussolini e a facilidade com que gente altamente comprometida com o fascismo virou rapidamente democrática, numa atitude mimética, e, para se defender, acusava todos os restantes de terem apoiado o ditador. Esta postura pode ser momentânea ou vivida ao longo dos anos de tal forma que, nada tendo a ver com a pele do outro, a veste com tal ardor que acaba por se convencer da sua semelhança, quiçá igualdade, com o elemento copiado.
Há fascistas convictos, estruturados como tal, que, pelo facto de viverem em sociedades democráticas, se afirmam democratas. Vivem e acabam morrendo seriamente eivados de uma certeza construída para defesa pessoal e possibilidade de subsistência sem sobressaltos.
Se politicamente é possível encontrar significativos casos de mimetismo, na convivência social há-os a pontapés.
Antigamente, quando havia bastante comércio a retalho em pequenas lojas de bairro ou aldeia, os proprietários, capazes de se enganarem na soma do rol da dívida dos compradores a fiado, conseguindo um lucro marginal para além daquele que já acresciam ao preço dos produtos, afirmavam aos quatro ventos a sua honestidade intrínseca. E estavam perfeitamente convictos de que mais ninguém era tão honesto quanto eles!
‒ Mentira? Não. Simples mimetismo de honestidade!
É que, há uma coisa chamada consciência e, quando se não é um idiota completo, existem momentos em que se percebe a culpa de acções jamais passíveis de serem relatadas e assumidas em público. Então, quase inconscientemente, adopta-se o comportamento que não é condenável, veste-se a pele da vítima ou do herói, conforme for o caso.
Há muitos anos o meu amigo A contou-me que o seu amigo B se tinha divorciado por causa de um outro amigo de B. Chamemos-lhe C.
Este por causa intrigou-me e procurei aprofundar a questão, sendo que não conhecia nem B nem C. Fiquei a saber o que se tinha passado. Vou contar-vos para perceberem como actua o mimetismo entre certas pessoas.
C era mal casado e, a dado passo, a mulher arranjou um amante. C, quando soube, desesperado, quis um divórcio litigioso, logo de seguida, com grande escarcéu público. O assunto foi falado, como se costuma dizer, por “meia Lisboa”.
B, casado com uma mulher ‒ segundo me contou o meu amigo A ‒ que o adorava e incapaz de lhe ser infiel, muito amigo de C, sentiu profundamente as dores (deixem-me ser brejeiro e usar um certo vernáculo, dores de corno) de C.
Ora, as “dores” foram tão fortes que B não descansou enquanto não inventou um amante para a sua mulher, querendo repetir, com escândalo, o divórcio do seu amigo C. Não conseguiu atingir os cumes do divórcio de C, porque, segundo o meu amigo A, a mulher, sensatamente, optou por aceitar desfazer o casamento sem escândalos.
Ainda há dias, o meu amigo A contou-me que o tal B continua a afirmar a pés juntos a infidelidade da sua ex-mulher, tão igualmente quanto C o faz, passadas largas dezenas de anos.
B é um caso de mimetismo em relação a C.
Conselho: olhem à vossa volta e procurem encontrar, tanto no plano político como social, estas patologias nos vossos círculos de conhecidos e amigos. São verdadeiros casos onde a mentira surge escondida sob um pesado manto de disfarce.