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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

11.04.20

Micro e macro justiça


Luís Alves de Fraga

 

Nunca tive desejo de ser político. Gosto de servir o meu país em áreas muito distintas da política. Servi-o e, creio, continuo a servi-lo, agora já só limitado à escrita e a quem lê o que escrevo. Servi-o como militar e como professor. Desta última actividade resultou uma outra forma de servir o meu país: fazer História, investigando o passado recente. Mas, servir como político ficou sempre fora dos meus objectivos.

Todavia, há muitos anos, iniciei-me no estudo da Ciência Política, naquilo que os políticos fazem, e aprendi que há uma relação de causa-efeito entre a política/políticos e a sociedade. Os políticos e a política, para sobreviverem, precisam da sociedade e os cidadãos, para encontrarem soluções para os seus problemas, os seus desassossegos, as suas angústias, as suas inseguranças, precisam dos políticos.

Entre uns e outros há sempre um diálogo dialéctico delimitado pela acusação e pela justificação; a sociedade acusa e os políticos justificam. Nem sempre são facilmente inteligíveis as justificações, embora as acusações saltem facilmente à vista.

 

Para estudar este tipo de fenómeno social tem de se ser capaz de se posicionar num dos termos da argumentação dialéctica, percebê-lo e, depois, saltar para o outro termo e compreendê-lo, porque ambas as partes têm razão ou, pelo menos, a sua razão. Neste jogo de tese-antítese o investigador, o politólogo, tem de estabelecer a síntese quase nunca aceite por nenhuma das partes, embora seja a que busca o equilíbrio moderado e moderador.

 

Vem tudo isto a propósito das queixas que já se fazem ouvir por parte dos casais com filhos pequenos ‒ em idade de infantário ou primeiros anos de escolaridade ‒ a fazerem teletrabalho, confinados ao espaço de casas pequenas. Dizem que não conseguem atender a todas as solicitações e a solução passaria por, segundo estes pais e trabalhadores, o Estado pagar a um dos progenitores uma parte do salário e as obrigações laborais passarem a meio tempo e deixarem de pagar aos infantários ou escolas que, de facto, não lhes estão a fornecer qualquer tipo de serviço. Assim tornar-se-á possível prestar atenção aos filhos e ao emprego!

 

Compreendo completamente as razões destes trabalhadores e pais angustiados pela alteração de rotinas que lhes desconjuntou a vida. Mas há uma distância entre compreender e concordar! Para compreender basta colocar-me no lugar deles; para concordar tenho de analisar a solução preconizada por eles.

 

Começando pelo pagamento das escolas/infantários.

Se estes estabelecimentos continuam a cobrar mensalidades por serviços que não realizam é porque têm de continuar a pagar aos empregados, que os auxiliam em tempos de normalidade. Mas, aqui, admito, deveria ser o Estado a liquidar esses encargos, libertando as escolas e infantários dessa despesa e, deste modo, aliviando as famílias de tal obrigação. Acho que é um dever social, pois acompanha a problemática da restante economia.

Já, quanto ao meio tempo e meio salário, temos de olhar para o problema do empregador. Vejamos.

Se o empresário tem gente a laborar em regime de teletrabalho é porque consegue margem para se manter activo; se lhe retiram capacidade de produção, passando a um meio tempo de trabalho, afectam-lhe a quantidade produzida, logo, ou tem de dispensar por completo o trabalhador para o substituir por outro ou tem de contratar alguém para dar continuidade ao trabalho que não é feito ou, em última instância, tem de pedir ao Estado a compensação financeira para aquilo que deixa de produzir.

 

Estamos, por conseguinte, perante dois tipos de problemas: um ‒ de natureza micro ‒, o dos trabalhadores com filhos pequenos confinados ao domicílio; outro ‒ de natureza macro ‒, o de uma economia que, para satisfazer as exigências de alguns trabalhadores, vê desequilibrada a sua capacidade produtiva.

Qual é que deve ser sacrificado e qual deve ser beneficiado?

 

Este é o dilema dos grandes decisores políticos, porque há sempre custos sociais ou económicos qualquer que seja a solução escolhida.

O problema de quem toma decisões é que, também, tem de saber dormir sem pesos de consciência, porque reclamar é fácil. E também é fácil ser faccioso, intransigente e surdo, limitando-se a olhar uma só parte e esquecendo a globalidade dos problemas.

Aqui têm o motivo por que me dediquei à politologia e não à política.