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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

08.10.20

Memórias, porquê?


Luís Alves de Fraga

 

Desde que, no ano de 1982, decidi fazer da pesquisa histórica a minha segunda actividade principal, comecei a perceber a importância dos documentos que contam coisas. Foi por esses anos da década de 80 do século passado que topei com vários géneros de memórias. Li com interesse redobrado Raúl Brandão, Bulhão Pato, José Relvas, João Chagas, Manuel de Arriaga, António Granjo, Jaime Cortesão, André Brun, Teófilo Duarte, Fernando Tamagnini de Abreu e Silva (nos originais manuscritos), Ferreira do Amaral, Norton de Matos, Sebastião de Magalhães Lima, Machado Santos, Marquês de Lavradio e muitos mais que será maçudo enumerar.

Uns limitaram-se a contar relatos de momentos específicos da sua vida, outros, poucos, a sua vida quase por inteiro.

Com eles, consegui viver os seus tempos, ver o que descreviam, sentir o que sentiam e isso permitiu-me ser capaz de saltitar de época em época e, mais do que tudo, saltar de maneira de olhar para outra maneira de ver e sentir o mesmo. Era como que vestir-me com a pele de cada um deles e andar a passear por onde eles se passeavam.

Julgo que nem todos nós somos capazes de vestir e despir peles; há quem tenha medo de sair de dentro de si para ser, ainda que por momentos, um outro. Parece-me que só pode dizer-se historiador quem possuir essa capacidade mutante em simultâneo com a habilidade de interpretar, sintetizar e explicar o que o outro viveu e sentiu. É como ser médico ou enfermeiro ou mecânico ou artífice, pois há quem não seja capaz de ver sangue e tratar feridas ou reparar máquinas ou ter destreza manual.

 

Cheguei a uma idade ‒ jamais pensei aqui chegar ‒ em que perdi, ganhei e modifiquei vários conceitos. O medo, perdi-o (podem prender-me, pois viver ou morrer em qualquer sítio é-me já indiferente); o pudor, modifiquei-o; a ética, revi-a; o espírito de corpo, ponderei-o. Tudo isto são estados de alma e formas de proceder socialmente que, em certas idades, são necessários e fazem parte do saber viver, mas, quando se está, como eu, numa altura da vida em que se tem de saber morrer, perdem importância ou ganham outra importância.

E reparem, foi por causa da ética, da defesa das instituições, de não atentar contra o pudor que, durante muito tempo, na Igreja Católica, nas artes teátricas e musicais, no desporto e em mais actividades se esconderam os abusos sexuais. Foi por causa de não escandalizar nem reduzir o papel do homem na família e na sociedade que se mantiveram em silêncio as agressões de toda a ordem exercidas sobre a mulher.

Mas ganhei coragem para enfrentar aquilo que, na ordem pública da minha vida, achei que devia contar com uma única finalidade: tentar que haja alteração de comportamentos para, no futuro, poder ser diferente.

 

Podia escrever as minhas memórias e deixá-las para publicação futura. Podia, mas, mais uma vez, ia fugir à denúncia daquilo que, em termos institucionais entendo que deve ser denunciado em tempo. Se fossem póstumas as minhas memórias elas seriam passíveis de ganhar contornos de vingança; mas, em minha vida, elas são o meu último grito de alma.

E, agora, as memórias têm a utilidade de poderem servir a quem quiser analisar o que possa ser analisado em termos históricos ou sociológicos ou, até, psicológicos, pois estou disponível para esclarecer, em privado, algum aspecto que valha a pena ser esmiuçado. Como é evidente, nem fui figura pública, nem sou, nem a minha vida teve importância por aí além. Todavia, ao ser professor, poderei ter influenciado ‒ bem ou mal ‒ alguns ‒ muitos ou poucos ‒ dos meus alunos e, por isso, eu tenho responsabilidade histórica. Não será grande, mas, por pequena que seja, é minha e não me eximo a responder por ela. E essa influência só será completamente compreendida se se perceber toda a minha vida anterior, o mesmo é dizer, de onde venho e que caminho percorri até ao momento de poder ter exercido algum influxo naqueles a quem procurei transmitir conhecimentos e maneiras de estar perante a vida. E não foram poucos os anos em que exerci essa possível influência… Foram os que vão de Outubro de 1981 a, pelo menos, Julho de 2017, quase trinta e sete anos!

 

A escrita das memórias pode dividir-se, no mínimo, em dois tipos: uma, a que relata a vida, os contextos em que ocorreram os factos e a forma como o autor se posicionou; outra, aquela em que o autor se assume como jornalista, cronista ou simples contador e relata o seu tempo sem dar testemunho sobre si nem da interacção que teve com os acontecimentos.

Na última, o autor apaga-se, tanto quanto possível, e dele só se percebe um pouco mais através da forma como relata; na primeira, o narrador usa o singular eu e é através dele que tudo passa e é contado. Assim, a quem se apaga, parece, pode aplicar-se o conceito de exocêntrico e ao outro o de egocêntrico. Todavia, para mim, em qualquer dos casos não se deve pôr carga adjectiva na escolha feita pelo autor, pois, antes do mais, julgo, ambas não são mais do que estilos narrativos.

Nas minhas memórias optei por me vincular a elas, usando a primeira pessoa do singular, até porque, as memórias são minhas e é o meu testemunho que pretendo deixar. Não se trata de um traço de vaidade, mas de responsabilidade perante o que afirmo e perante quem agora me lê ou vier a ler.

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