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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

12.01.19

Mário Soares, a Democracia e as Forças Armadas


Luís Alves de Fraga

 

Conheci pessoalmente o Dr. Mário Soares, mas limitei-me a frases formais em cerca de meia-dúzia de encontros. O muito que sei dele é fruto de observação da sua actividade política. Contudo, por força da minha idade, naturalmente, vivi a vida pública do estadista com consciência e pleno sentido crítico. Assim, não emito juízos de valor retirados de declarações de terceiros ou por os ter ouvido a outros. Digo o que penso, por força de atenta observação própria.

 

A longevidade, uma “reconstrução” actual de um passado já distante, a necessidade de ter “heróis” na nossa democracia, uma certa habilidade para fazer parecer o que não foi, gerou um Mário Soares lendário, um “pai” da liberdade e do presente regime nacional.

Pode deixar-se a pergunta: «Uma injustiça e ou uma inverdade»? Nem uma coisa nem outra. Simplesmente, um exagero.

 

Mário Soares foi o político da oposição que soube, semanas após o 25 de Abril de 1974, cavalgar os sectores mais decisivos da situação de então e tirar deles o resultado que melhor servia a sua imagem e mais projectava o Partido Socialista (PS) nada conhecido entre nós, na época.

Agarrou, antes de tudo o resto, o processo de descolonização, através de tentar coordenar as conversações com os movimentos de libertação. Isso deu-lhe logo prestígio internacional – ainda que sérias críticas entre os colonos dos territórios a promover a independência – que capitalizou para se alcandorar à posição política capaz de conduzir toda a mudança da ditadura para a democracia.

É polémica a minha afirmação? Qual dos líderes partidários poderia dirigir o processo? O comunista Álvaro Cunhal? O antigo membro da Assembleia Nacional, Sá-Carneiro? O mais que enfeudado, na época, ao fascismo Diogo Freitas do Amaral? Um Tengarrinha, tido como extensão do PC?

A “lógica” da situação apontava para Mário Soares e ele percebeu que ou agarrava a oportunidade ou perdia-a para sempre. Foram as circunstâncias mais alguma audácia de velho conspirador, que o colocaram na ribalta política nacional.

 

Mas, para quem recorda bem o chamado PREC, o PC estava a ser acusado, por Mário Soares, de pretender a sovietização de Portugal, mesmo que isso não fosse verdade. Impunha-se “liquidá-lo” no plano nacional e internacional e foi Mário Soares o algoz dos comunistas, sem deixar bem claro que a extrema-esquerda era o motor da instabilidade e da “revolução”. A concentração na Fonte Luminosa, que reuniu o PS e o PPD/PSD e “fez” de Mário Soares o “campeão” da democracia portuguesa, é disso testemunho.

 

Mas as vitórias soaristas não eram suficientes para segurar, efectivamente, a democracia nesse Portugal em instável equilíbrio político. Assim, havia que tomar decisões estratégicas de longo alcance capazes de constituir o “fecho de segurança” de todo o sistema. E a “jogada” teria de ser feita em duas frentes: a externa e a interna.

 

No plano externo, o verdadeiro “seguro” impeditivo de viragem a uma nova ditadura era a adesão à CEE; ela garantiria a existência dos mecanismos democráticos em Portugal. Deste modo, Mário Soares foi o “campeão” da entrada do país no Mercado Comum sem olhar às consequências que daí resultavam para a perda de soberania através da alienação de grande parte do nosso sector produtivo. Os dossiês para possibilitar a redução de efeitos negativos deveriam ser estudados por especialistas, não sendo preocupação para Mário Soares, porque ele era o homem das decisões “estratégicas”; os “pormenores tácticos” ficavam para outros de duvidosa capacidade técnica.

 

No plano interno, a verdadeira “segurança” vinha da redução da capacidade interventiva das Forças Armadas na política. Os militares não era gente de confiança: não haviam sustentado a 1.ª República, não tinham conspirado o suficiente para derrubar mais cedo a ditadura e fora só a impossibilidade de vencer a guerra que os levara à revolta libertadora. Que confiança se podia ter neles? No seu seio não cresceu um Spínola e um Otelo Saraiva de Carvalho? Então, havia que lhes reduzir capacidades operacionais, aliás, segundo a sua perspectiva, absolutamente desnecessárias depois de estar de pleno direito na CEE. E foi sempre isso que foi feito quando o PS foi Governo, secundado, mais tarde, pelo PPD/PSD.

 

Mário Soares foi, por certo, um político destacado no Portugal depois de Abril de 1974, mas, julgo, a bem de alguma fidelidade e fidedignidade históricas não devemos esquecer o como e o porquê desse destaque. Admito que contribui para tal.