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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

14.02.21

Marcelino da Mata

Herói somente


Luís Alves de Fraga

 

Homenagear, na morte, o tenente-coronel comando Marcelino da Mata exige uma reflexão sobre a ciência política e a guerra colonial e depois, uma investida pela sociologia militar.

 

Comecemos pela ciência política e, em particular, pela polemologia.

O que foi a guerra colonial?

Para o Estado Novo ‒ o fascismo português ‒ a guerra no ultramar foi, embora nunca o tenha afirmado, uma guerra de secessão, por conseguinte, uma guerra civil, um conflito em que uns territórios pertencentes a um todo, tido como nacional, conduzidos politica e militarmente por partidos políticos ‒ proibidos na vigência do regime ‒ queriam separar-se para serem independentes.

Para os partidos políticos africanos, que conduziam a luta armada, a guerra era de libertação, de independência e anticolonial.

Já aqui, e por causa do que disse, temos de separar águas. A esmagadora maioria dos combatentes europeus de Portugal ia para a guerra convencida de que lutava por uma causa justa e, acima de tudo, nacional. África, para quase todos, estava no cu do mundo, mas era nossa, dos Portugueses e, ainda por cima, o poder político constituído, afirmava que aqueles territórios eram tão portugueses como as aldeias e cidades de onde saíam os nossos soldados para, de arma na mão, defender essa unidade territorial. Para eles, para nós, a guerra era justa e patriótica. Raros eram, em percentagem, aqueles que saíam do Portugal europeu, com a consciência de não havia um Portugal ultramarino e, por conseguinte, que iam combater numa guerra civil onde, se quisessem, poderiam escolher o lado onde servir, por haver uma identificação ideológica com a razão da guerra. Desses, com essa consciência, muitos optaram por desertar do país e alguns, muito poucos, por desertar, servindo a causa africana.

 

Passemos, agora, a olhar o recrutamento dos Africanos para a guerra de independência dos seus territórios. Neste caso, a análise torna-se muito mais simples.

Devido à propaganda, tanto feita pelos órgãos competentes do fascismo como pelos dos movimentos ou partidos defensores das independências, os recrutas ficavam num dilema: ou servir nas fileiras do colonizador e identificar-se com a sua causa ou servir nas fileiras dos partidos rebeldes e desertar para defender a independência. Por muito pouco politizado que fosse o jovem africano ele sabia que só tinha dois caminhos e, por indiferença, comodidade, conveniência ou consciência política optava com mais liberdade do que o soldado transmontano, minhoto, algarvio ou alentejano.

 

Explicado este ponto, passemos, agora, ao plano da sociologia militar.

Herói é o combatente que luta com coragem, sem medo, expondo-se e expondo a vida para cumprir os objectivos que lhe foram determinados, fazendo-o para além do que é expectável, para além do comum. Herói é o combatente exemplar, o símbolo a seguir, o modelo de soldado. Tal apreciação não tem nada de político!

Mas, fazer do herói militar um exemplo nacional, apropriando-se das suas qualidades de combatente para o exaltar como modelo a seguir na guerra, é deturpar a heroicidade para fazer política. E foi isso que o Estado Novo fez em relação aos bons combatentes, maculando-os na sua impoluta condição de soldados. Mas não foi só o Estado Novo, a Monarquia fê-lo, por exemplo, com Mouzinho de Albuquerque.

 

O culto do herói remonta aos tempos mais recuados e, ao que sabemos, podemos percebê-lo ao analisar o comportamento de certos grupos de guerreiros, ditos antropófagos, porque comiam os chamados órgãos nobres dos seus adversários (coração e fígado). Faziam-no não para matar a fome nem para humilhar os vencidos. Comiam só e somente os dos mais valentes adversários para adquirirem as suas capacidades e qualidades de combate.

Numa perspectiva da sociologia militar o culto do herói não se faz só nas nossas fileiras. Faz-se também enaltecendo os heróis do inimigo, porque só assim se justificam os nossos heróis. O que resta do culto antropofágico primitivo é a homenagem dos combatentes daqueles que foram, no passado, nossos adversários. Não é a exaltação dos nossos heróis que nos torna mais dignos, pelo contrário, é a exaltação dos nossos adversários que nos dá mais glória.

 

Da conjugação do que resulta da análise política com a da sociologia militar percebemos que os políticos sujam e maculam os lídimos valores castrenses, porque é do reconhecimento dos sacrifícios feitos por todos os combatentes, no campo da honra, que resulta a honra de ser soldado. E os verdadeiros soldados respeitam-se.

 

Marcelino da Mata fez uma opção política na Guiné e honrou-a em combate. É um herói militar merecedor do respeito de todos os que sabem o que é combater sejam de que campo forem. Não lhe chamem herói da Pátria. Chamem-lhe só e somente Herói. Assim homenageiam um combatente.

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