Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

21.12.21

Livros de acaso e momentos inesquecíveis


Luís Alves de Fraga

Livros de acaso e momentos inesquecíveis

 

Há já mais de duas semanas fui até à não muito grande livraria do El Corte Inglês, em Lisboa, e, para não me cansar, tendo onde sentar-me, levei a minha “bengala-banco”, permitindo-me, sem incomodar ninguém, ficar a ler livros pelo tempo que me apetecer.

Logo numa das mesas de entrada, vi o livro de que já aqui falei sobre uma entrevista feita ao Papa Francisco. Por razões também referidas, senti-me atraído para a pequena obra e vá de folheá-la, aqui e ali, lendo umas frases soltas, como faço com todos os livros antes de os comprar. E este comprei-o, porque me pareceu que seria uma leitura repousante e, ao mesmo tempo, antagonicamente incómoda, na medida em que me iria fazer pensar sobre bastantes dos problemas levantados pelo entrevistador, ao longo das páginas, ao ler as respostas de Mário Jorge Bergoglio.

Não me enganei.

 

É que Mário (na versão portuguesa, que prefiro à argentina, sem acento no a) Jorge, independentemente de ser um sacerdote católico, um bispo, um cardeal e um Papa, é um homem com várias condições que, ao ouvir falar dele, me atraíram: foi uma vocação tardia, assim teve oportunidade de escolher entre a vida comum de um argentino comum e a de um sacerdote católico ‒ convence-me muito mais do que os meninos entrados nos seminários e, onze anos depois, desembocam frente a um altar a celebrar missa ou a sentarem-se no confessionário para ouvir quase tudo o que nunca experienciaram.

Mário Jorge teve namorada e, por muito contido que tenha sido (tê-lo-á sido?) nesse namoro, quase de certeza teve a oportunidade de sentir o veludo dos lábios da sua amada quando a beijou na boca, as formas físicas dessa menina, as mamas, as coxas, as pernas, a cintura e, naturalmente, excitou-se, masturbou-se, teve noites de insónia para conter as hormonas em movimentos tentadores (bolas! Eu sei do que falo… Ele é só mais velho do que eu cinco anos e a Argentina não é assim tão distante culturalmente de Portugal!).

Tinha vinte e dois anos quando escolheu seguir a vida eclesiástica. Mário Jorge foi um jovem igual a tantos outros do seu tempo. E, por certo, não optou pela Companhia de Jesus, por mero acaso; também Santo Inácio da Loyola, depois de um começo de vida passado entre a devassidão dos hábitos dos soldados espanhóis do século XVI, entregou-se à vida espiritual, vivendo uma pobreza de bens materiais semelhante à de S. Francisco de Assis.

Julgo que têm de ser lidas com imparcialidade as vidas de Loyola e de Francisco de Assis para se perceber o traço que explica as duas escolhas de Mário Jorge: ser jesuíta e, depois do consistório cardinalício que o escolheu, ser Francisco, Papa.

 

Este livro está cheio, desde a primeira página até às últimas, de uma visão fraterna para a humanidade ‒ não se trata aqui dos velhos e estafados discursos dos padres que têm muita pena dos pobrezinhos e aconselham como solução a caridade. Não, Mário Jorge, sem assumir o papel de um político, nem o discurso farisaico dos bispos, cardiais e sacerdotes da minha e da juventude dele, sem se tornar num falso comunista ‒ que não é nem nunca foi ‒ advoga a necessidade de se deixar de consumir milhões em armamentos para fazer guerras, encaminhando-os para a solução das desigualdades provenientes dos erros e crimes ambientais, para que haja um futuro para a humanidade. Curiosamente, sem nunca condenar directamente a riqueza, condena os excessos de consumo e os de pobreza.

 

Este é um livro que não vai converter ao catolicismo quem não queira ser católico, nem vai afastar da opção religiosa quem tiver outra ou nenhuma, mas que vai deixar cada leitor mais consciente das diferenças, das injustiças e das necessidades existentes entre nós. Podem chamar-lhe utópico, mas é uma voz que fazia falta, que faz falta e que vai ser recordada, quando um dia deixar de ser ouvida.

Este livro acorda-nos por dentro para aquilo que calamos por comodismo, convencionalismo e, até, por medo ou irrealismo.

Se eu encontrar na rua o Mário Jorge Bergoglio, nestes tempos de pandemia, se os seguranças me deixarem aproximar, dou-lhe um encosto de braço, porque ele tem só um pulmão e temos de preservar a vida de homens como ele.

Papa Francisco e o Futuro.jpg

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.