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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

07.11.22

Jerónimo de Sousa


Luís Alves de Fraga

 

Já está decidida a substituição do actual secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa. Os órgãos de comunicação social dão um extraordinário relevo ao facto. Tudo parece diferente do que se se tratasse de um outro líder político. Só que Jerónimo de Sousa não é um líder político; é o porta-voz de um colectivo onde as decisões são tomadas e é ele quem empresta a voz e a figura para as comunicar e bater-se por elas. Muita gente confunde o PCP com o PCUS e a já não existente URSS onde o secretário-geral era o ditador de todo o sistema. Além do mais, já não existe União Soviética, nem Internacional Comunista; agora, cada partido que se reclame do marxismo-leninismo gere-se a si mesmo e segundo aquilo que julga serem os princípios doutrinários que podem levar à mudança de regime, de sociedade e de democracia.

 

Carlos Carvalhas com Jerónimo de Sousa foram os sucessores de Álvaro Cunhal, sendo que o primeiro, tomou posse do cargo em Dezembro de 1992, ou seja, um ano depois do desaparecimento da URSS e há que perceber esta sucessão de secretários-gerais.

Sendo o PCP um partido de massas e de classe orientado, originalmente, para o proletariado e, na actualidade, para os trabalhadores em geral ‒ deve entender-se, neste contexto, por trabalhadores aqueles que auferem baixos salários ‒ conteve em si mesmo uma profunda contradição durante as três últimas dezenas de anos da existência da URSS: de 1961 a 1992 o secretário-geral não era nem operário nem trabalhador manual nem descendente de tais grupos sociais: era um licenciado em Direito, com uma boa classificação na tese final de licenciatura (na época ainda existia essa modalidade de conclusão dos cursos), filho de um advogado endinheirado. O PCUS tinha, então, uma forte influência no comité central do partido e “indicava” (leia-se, impunha) aqueles que deveriam ser figuras de destaque dentro do PCP.

Quando Álvaro Cunhal, por força da idade e da doença, tem de abandonar o cargo, seguiu-se-lhe, na contradição, Carlos Carvalhas, antigo estudante de Economia, com licenciatura nesta matéria (mais tarde doutorou-se em Sociologia) com ligação ao operariado metalúrgico e à CUF (Companhia União Fabril, um dos maiores grupos financeiros e industriais do Portugal antes de 1974). Foi secretário-geral no período de 1992 a 2004, data em que, finalmente, a contradição se desfez, pois de origem, Jerónimo de Sousa é operário metalúrgico, nascido numa família humilde e de trabalhadores braçais.

 

Era necessária esta explicação para se perceber a “lógica” das sucessões no cargo, pois, sendo a origem de classe diferente da dos ideais do partido havia uma natural entorse da maneira de estar e de proceder dos secretários-gerais. Essa entorse acabou com Jerónimo de Sousa que, ao falar em nome dos trabalhadores, sabia do que falava, mas falava também de uma outra realidade distinta da que foi vivida por Cunhal e Carvalhas, visto a sua adesão ao PCP ter ocorrido já em 1974, um tempo de liberdade em Portugal, e de ter representado um partido cujas raízes já não mergulhavam na “terra” do PCUS nem da URSS. Quer se queira ou não, o PCP pós-URSS foi e é um PCP diferente. É um partido que se governa por si mesmo e desligado de orientações externas; é um partido muito mais português, arrisco-me a dizer, muito mais nacional do que qualquer dos outros, pois os restantes encontram ligações e legitimações internacionais que o PCP só tem se aceitar parcelas de identidade ideológica com alguns partidos pró ou pré comunistas existentes no mundo de hoje. Na realidade a social-democracia é internacional, tal como é o neoliberalismo e, até, o populismo de certos partidos da “nossa praça”. O PCP é um partido marxista-leninista sem outras âncoras que não sejam as que o ligam à ideologia exposta por Marx e levada a cabo por Lenine. E, a este propósito, temos de distinguir entre a teoria, a doutrina e a práxis desenvolvida, na URSS, em especial no período estalinista e pós-estalinista. Eis, provavelmente, a razão que leva o comité central do PCP, após o quase total desaparecimento da geração que viveu, em simultâneo, a perseguição fascista de Salazar e a ditadura estalinista e pós-estalinista, a escolher para secretários-gerais operários e não intelectuais convertidos à vivência proletária, que fazia algum sentido quando o partido era para os trabalhadores e agia doutrinariamente como uma ditadura incapaz de se entender com partidos burgueses (segundo a terminologia do próprio partido). E a melhor prova do que acabei de afirmar está na sincera, leal e frontal aliança que deu pelo nome de “Geringonça”.

Com a nova eleição do novo secretário-geral prova-se que o partido está em mudança, mas sem os desvios ideológicos tão desejados pelos restantes partidos do leque democrático da nossa democracia, que ao querer tal alteração mais não quer do que acabar com o PCP na sua forma original. Devo acrescentar que, na minha opinião e na de muitos outros analistas políticos, só neste formato ideológico é que o Partido Comunista é útil à nossa democracia pluripartidária e multi-ideológica. É desta oposição que Portugal carece.

 

Se tivermos a capacidade de saber olhar e interpretar o PCP com imparcialidade e sem preconceitos, tal como tentei fazer antes, percebemos que não é o partido que está a atravessar uma crise, mas em crise está a sociedade portuguesa (arrisco-me a dizer, internacional), porque vem descaindo da “rota de navegação”, segundo uma deriva que coloca a democracia em fase de mudança ideológica, enquanto o PCP continua fiel à sua posição anti-imperial que vê na política externa dos EUA o real perigo da e para a democracia. Do PCP sabemos aquilo com que contamos, mas de Washington desconhecemos quase tudo, como se comprova com a presente guerra entre a Ucrânia e a Rússia.

Se é certo que o PCP não vai dar lições de democracia liberal aos restantes partidos nacionais, a verdade é que, ao ser, como é, um acérrimo defensor da Constituição Política da Nação, defende a pluralidade partidária e, deste modo, a democracia na sua forma mais pura. E é isto que a grande maioria dos anticomunistas primários do nosso país são incapazes de ver e, muito menos, de compreender.

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