Hoje é o contrário de ontem ou talvez não
Logo após a vitória dos Aliados, em 1945, verificou-se que a Europa estava, para além de fisicamente destruída (as grandes cidades alemãs era um monte de entulho, as suas fábricas e linhas de caminho-de-ferro, bem como as autoestradas estavam inutilizadas e em destroços por causa dos bombardeamentos massivos) havia ficado sem capacidade produtiva e sem capacidade de compra, porque a produção se limitava aos mínimos.
No lado oposto deste quadro, estavam os EUA com todo o seu aparelho produtivo em funcionamento, uma economia florescente, sem desemprego ‒ as mulheres haviam ocupado o lugar dos homens nas fábricas ‒ e com um excelente padrão de vida.
Este panorama era, realmente, bom, porque a indústria de armamento se tornou no motor impulsionador de toda a restante economia. Acabada a guerra, a produção daquilo que não seria mais necessário ‒ armas e munições ‒, sendo suficiente para o consumo interno, não teria compradores externos se as economias restantes não se recompusessem tão rápido como possível.
Duas brilhantes ideias surgiram em Washington: dar um grande apoio financeiro à Europa para que refizesse a sua economia e pudesse tornar-se uma entidade comercial parceira dos EUA e criar um organismo que garantisse a continuidade da indústria de armamento americana.
Em 1948, foi aprovado pelo Senado um extraordinário auxílio financeiro à Europa, que tomou o nome de Plano Marshall e resultou plenamente, de tal forma que, dez anos depois, o Velho Continente dava os seus primeiros sinais de vida com a célebre exposição internacional de Bruxelas, que levou quarenta e dois milhões de pessoas a visitá-la. Era a vitória da paz sobre a guerra, mas, acima de tudo, era a afirmação de que os EUA haviam criado um mercado onde vendiam e compravam de modo a manter a sua prosperidade interna. Sem a ajuda americana tudo teria demorado muitos mais anos e o progresso e bem-estar teriam chegado à Europa muito mais tarde. Todavia, como se vê, é preciso perceber que o apoio dos EUA não foi desinteressado.
A outra brilhante ideia, nascida em 1949, também na América, foi a criação da NATO, como aliança entre os EUA, o Canadá e alguns países democráticos da Europa, entre os quais estava o muito democrático Portugal do Estado Novo, chefiado pelo velho ditador Oliveira Salazar.
A NATO cumpria duas funções: por um lado, abastecia de armamento os Estados europeus, por outro, constituía a ameaça permanente à URSS, que, segundo a doutrina americana, punha em risco a Europa Central, dado que apontava para a possibilidade de fazer estalar uma terceira guerra mundial, partindo da Alemanha de Leste, que se havia constituído em Estado independente, adoptando o comunismo como ideologia política.
O laço da armadilha americana estava montado! Parecendo tudo uma política de auxílio à Europa, a verdade é que tratava-se de uma acção estratégica ‒ com benefícios para os países europeus, é certo ‒ de largos dividendos para a economia dos EUA.
Do Plano Marshall a Europa conseguiu saltar para o estabelecimento de um mercado comum com livre circulação de pessoas e bens, gerando riqueza e evitando concorrências capazes de originar conflitos entre Estados. O grande motor dessa nova unidade comercial foi a Alemanha que, também, à semelhança dos EUA, só tinha a ganhar. Naturalmente, a Europa, ao dar a independência às suas colónias no período seguinte ao fim da guerra ‒ imposição da Carta das Nações Unidas, outro organismo onde preponderam os EUA como financiador líquido mais importante ‒ perdeu fontes de matérias-primas mais baratas, enquanto os EUA ganharam mais algumas bases militares no mundo e impuseram os seus esquemas económicos em vastas zonas do globo terrestre.
A chamada Guerra Fria entre o Ocidente e o Bloco de Leste transformou-se em guerra quente nas antigas colónias da Europa, já que por interpostas pessoas ou directamente, se combateram com o intuito de ampliar os seus mercados fornecedores e as respectivas zonas de influência. Daqui, para se chegar à pergunta crucial, é um pequeno passo: «Quem é que ganhou, no âmbito estratégico mundial, com o Plano Marshall, a criação da NATO e a descolonização?» A resposta é evidente!
Com o passar das décadas, na Europa, aquilo que começou por ser um mercado comum acabou por se transformar num bloco político e económico, com uma moeda própria e um peso específico na economia mundial: a União Europeia (UE).
Sendo um grande parceiro comercial no mundo, aceitando negociar com uma China a florescer economicamente e com uma Rússia desligada da ideologia comunista, a UE começou a representar um risco ‒ não imediato, mas a médio-longo prazo ‒ para a Grande Estratégia dos EUA. Note-se que esse perigo não resultava da concorrência directa, mas dos choques com a estratégia traçada por Washington para a economia e importância militar americana no mundo, em particular, num mundo globalizado.
O bom entendimento da Alemanha com a Rússia e os laços comerciais com a China (que passou a equacionar hipóteses estratégicas capazes de a colocar como principal potência comercial do mundo) determinaram uma alteração no comportamento dos EUA para com a Rússia, a Europa e a China. O desbocado presidente Donald Trump deixou vislumbrar, aquando da sua permanência na Casa Branca, um pouco do que poderia vir a passar-se e que Biden, com inteligência e manha, pôs em prática, usando de todos os meios secretos postos à sua disposição. Para tanto, bastou agarrar na Ucrânia, atiçando-a contra as regiões onde os russos tinham elevada densidade de simpatizantes.
Um massacre desses ucrano-russos era suficiente, assim como a promessa de apoio na reconquista da Crimeia, para levar Moscovo a movimentar, no tabuleiro da estratégia mundial, forças militares com vista a fazer regressar Kiev a uma neutralidade que lhe era favorável. Contudo, a promessa de entrada na NATO feita ao presidente ucraniano e, até, a possível admissão na UE ‒ um golpe estratégico que, ao invés de fortalecer a Europa, a pode enfraquecer (para onde vão as quotas de produção agrícola dos membros já ligados à União, se a Ucrânia for admitida?) ‒ foi o suficiente para dar alento a Zelensky, levando-o a inchar o peito e afrontar a ameaça de Moscovo.
Perante a possibilidade de concretização do prometido, o Kremlin ‒ fosse Putin ou outro qualquer a presidir ‒ reagiu, primeiro fazendo sérios avisos e, perante o ar desafiante de Kiev, invadindo preventivamente o território pivot da estratégia americana na Europa.
O Estado ucraniano, o seu povo, a demolição de todas as infraestruturas implantadas naquele território, bem como o número de mortos, estropiados e empobrecidos resultantes do conflito pouco interessam aos EUA, a Washington, ao Pentágono, a Biden; importante é a sua estratégia global. Para cobrir com uma boa tela de camuflagem esta frieza americana nada melhor do exaltar, nos órgãos de comunicação social, as malfeitorias dos russos com a invasão, tal como se fosse possível conduzir uma guerra sem estragos, tentando fazer esquecer os horríveis bombardeamentos levados a efeito pelas aeronaves americanas no Vietnam! Mas não é isso que me preocupa neste momento.
Importante é que com a eclosão do conflito na Europa e os consequentes resultados económicos e políticos dele saídos três objectivos podem ser alcançados pelo Pentágono e pela Casa Branca: o descarado enfraquecimento do poder militar russo; a desarticulação da economia europeia com as consequentes hipóteses de desentendimentos dentro do bloco; e, por fim, a possibilidade de corte de entendimentos entre Moscovo e Pequim. Ou seja, aquilo que o Plano Marshall e a NATO ajudaram a construir no Velho Continente vai cair, pedaço a pedaço, por vontade dos EUA, porque também uma Europa unida, militar e economicamente forte representam uma ameaça para os EUA dentro do tabuleiro deste xadrez da estratégia mundial que Washington não quer deixar de controlar nem perder.
E, nós por cá, sem percebermos nada disto, cortamos relações uns com os outros, porque somos acusados de estar ao lado do PCP ou de Putin ou de não sermos atlantistas!
Foi assim que não soubemos tirar bons e duradouros rendimentos das nossas antigas colónias e perdemos todas as boas oportunidades criadas quase por acaso ao longo da nossa História! Sobrevivermos como Estado e Nação é fruto de uma qualquer divindade que protege os incapazes.