Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

20.05.21

Forças Armadas para que Estratégia Nacional?


Luís Alves de Fraga

 

A organização superior das Forças Armadas tem estado em discussão, agora já, na Assembleia da República por causa da concentração de poderes na mão do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA) em vez de uma muito mais operacional, saudável e fiável distribuição por entre os Chefes dos Estados-Maiores (CEM) dos três ramos, coordenados, em certas circunstâncias, pelo CEMGFA.

 

O verdadeiro problema não está naquilo que se discute agora. O problema está, como tive oportunidade de referir há mais tempo, no incompreensível medo que a classe política tem das Forças Armadas e da sua tradição interventora na área do poder. É um medo irracional ‒ como está provado com quarenta e sete anos de estabilidade democrática e total passividade dos militares ‒, mas, ele sim, atrasado em relação à modernidade de pensamento das nossas tropas, cada vez mais escassas em número e em eficiência operacional, mas, cada dia, mais conscientes de que o seu papel é o da defesa da Nação à ordem do Governo.

Isto não dá garantias aos governantes. Esse medo vem do tempo da clandestinidade de figuras que fizeram escola como pais da democracia, e refiro-me, sem papas na língua, a Mário Soares e a um escol de figuras destacadas do PS e algumas, até do PSD e outras do CDS.

Toda a importância e benefícios que os governos têm dado à GNR ‒ força policial e militar às ordens directas do ministro da Administração Interna, que já não depende, para ser superiormente comandada, dos generais do Exército, porque, finalmente tem os seus generais nascidos, criados e escolhidos dentro da disciplina governamental a que as Forças Armadas fazem questão de fugir, para não serem uma força dos políticos, mas, pelo contrário, uma força da Nação ‒ demonstram, à exaustão, o que afirmo ou, dito de outra maneira, mostram como se pretendem subalternizar as Forças Armadas.

 

Pode parecer aos meus leitores, que tudo isto não passa de uma bizantinice, de uma teoria da conspiração, de uma mania da perseguição, porque não estão dentro destas temáticas, nem sentem na pele os resultados de políticas que, a passo lento, mas seguro, vão empurrando as Forças Armadas para um papel ornamental que sirva para cumprir os compromissos internacionais ao nível de União Europeia e das Nações Unidas, porque, para a NATO a nossa contribuição e importância não está na força militar, mas antes na nossa posição geográfica que é, estrategicamente, fundamental para a defesa dos objectivos primários dessa aliança.

 

E adivinho nos leitores a pergunta e afirmação inevitáveis para quem não pensa, realmente com fundamento lógico e aberto ou, melhor dito, com pensamento estratégico:

‒ Mas para que é que precisamos de Forças Armadas? Ninguém se vem meter connosco!

É aqui que bate o ponto!

 

Tomemos atenção a uma ocorrência muito actual e a uma outra mais actual, mas menos badala nos meios de comunicação social: os incidentes em Ceuta e os combates no Médio Oriente entre Israel e o Hamas.

Ao que se noticia o movimento de entrada de imigrantes ilegais em Ceuta deve-se à protecção dada pela Espanha a um inimigo do Governo de Marrocos. Muito bem! Nada disto tem a ver connosco!

Ora, julgar assim é errar profundamente!

Tudo isto tem a ver connosco. E tem por uma simples razão: a Espanha é a nossa vizinha para a vida na Península e tudo o que se fizer ao nível político por lá, tem reflexos mais ou menos imediatos no nosso país. Reflexos aos quais não podemos fugir. Há um cordão invisível entre a política espanhola e a portuguesa. A cautela na relação com a Espanha tem de levar em conta essa tremenda fragilidade. E a prova de que não leva, anunciou-a ontem o Primeiro-Ministro: a linha férrea de Sines vai ligar-se à fronteira Leste com a Espanha!

E disse mais, com uma total inocência estratégica, uma total prova de falta de estatuto de estadista. Disse que ‒ pasme-se ‒ o porto de Sines vai ser o porto da Península Ibérica!

Isto é pôr nas mãos do governo de Madrid os interesses nacionais de Portugal, é assumirmo-nos como uma região de Espanha.

Era com coisas destas que os assessores do ministro da Defesa se deviam preocupar! Às nossas já grandes fragilidades estratégicas, alegremente, o Governo vai somar uma outra, que nos coloca, mais ainda, na mira dos inimigos de Espanha.

 

Que inimigos são esses?

Os marroquinos e, por associação, todos os Estados islâmicos. É isto!

Isto que se traduz, de imediato, na questão migratória, que se prende com as nossas Forças Armadas. Vejamos como.

Antes do mais, ao colocar a nossa política externa dependente da política externa de Espanha, temos de ter umas Forças Armadas capazes de responder dissuasoriamente às ameaças que possam cair sobre o nosso vizinho, de modo a, pelo receio bélico, separarem Portugal de Espanha. Depois, há que levar em conta a imigração em Portugal, tal como em toda a Europa.

Ora, os movimentos migratórios só se tornam em problema se não se traçar uma política de integração cultural nas culturas europeias ‒ não se trata de conversões religiosas, mas de aceitação, de parte a parte, das diferenças ‒ que se deve fazer através da escola (e, neste aspecto, ao que parece, até a França tem falhado!) e através de um outro mecanismo do qual tivemos larga e boa experiência nos anos da Guerra Colonial: o serviço militar obrigatório (SMO).

Realmente, dizia-se, e é verdade, o SMO era um processo de todos os jovens, de qualquer cor, religião ou região, durante meses, perceberem que estavam integrados num todo a que se chamava Portugal. Que estavam ao serviço da Nação ‒ coisa bem diferente de estar ao serviço do Governo ‒ o mesmo é dizer, ao serviço de todos nós independentemente de tudo o que nos une ou nos separa no dia-a-dia.

E o conflito no Médio Oriente?

Pois, bem, por lá luta-se entre duas culturas e duas religiões diferentes, gerando extremismos político-culturais. Estes vão procurar assentar arrais nos Estados que pratiquem políticas que se lhes oponham ‒ no caso vertente, onde o Islão é pouco bem visto ou mal recebido - e é aqui que entra a Espanha e, por arrasto, entramos nós.

 

Não me vou alongar mais. Não é conveniente. Deixo-vos somente esta ideia final:

Da primeira até à última linha, este texto está cheio com a ideia da importância da Estratégia Nacional, que os nossos governantes, infelizmente, desconhecem ou desprezam na luta partidária, na luta para satisfazer interesses nem sempre muito claros e ou confessáveis.

Poderia levar o que acabo de dizer até aos jornais ‒ àqueles que quisessem e fossem capazes de dar publicidade às minhas palavras ‒ mas valerá a pena?

1 comentário

Comentar post