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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

04.05.20

Fases da minha vida ‒ 8

(Uma grande paixão)


Luís Alves de Fraga

 

Quase a fazer dezoito anos, nas férias do Natal de 1958, encontrei, por mero acaso, na praça Marquês de Pombal, em Lisboa, aquela jovem loira que tinha sido minha colega nas explicações quando me preparava para o exame de admissão ao liceu e aos Pupilos do Exército. Em abono da verdade, por morar muito próximo da casa dos meus pais, nunca a havia perdido de vista e já havia, uma ou duas vezes, tentado formalizar um namoro ‒ porque, naquele tempo, tinha de ser tudo dito com declaração de amor para garantir que não se tratava de um devaneio de momento ‒, mas sem qualquer resultado efectivo. A desculpa era sempre a mesma: «Somos muito novos».

 

Dessa vez, nas tais férias de Natal, fui mais persuasivo, já estava com dezassete anos (ela com dezoito), e não éramos dois meninos! Telefonema para lá, encontro mais tarde, e vá que ela me impõe a condição máxima: «Namorar sim, mas com autorização da mamã» (era órfã de pai).

Lá fui eu, em fato domingueiro, pedir autorização à mamã. De agora em diante podíamo-nos encontrar na rua e conversar e ir lá a casa quando fosse conveniente. Saiu-me a sorte grande!

Se há anos andava desejoso do namoro, naquela altura os meus sentimentos viraram em autêntica paixão. Ela era, ainda, estudante, tal como eu. A mim, feitas as contas, faltavam-me dois anos escolares para acabar o curso e, habilitado, iniciar uma boa carreira como contabilista em qualquer empresa. E, verdade seja, não faltavam colocações no mercado, em grandes firmas…

A paixão fez vacilar o meu sonho de infância: ser militar. É que, para realizar esse sonho, teria de frequentar a Academia Militar e só poderia casar, no mínimo, aos vinte e quatro anos! Nem ela, nem eu, queríamos esperar tanto tempo! A paixão era mútua, nesta fase do namoro.

 

Como disse, frequentava o equivalente ao décimo ano de escolaridade, que já ia avançado um período.

Acabadas as férias de Natal voltei aos Pupilos, agora com imensa dificuldade, pois o meu desejo era estar no bairro da Graça, perto da minha amada.

A vida do internato, com todos os rigores de então ‒ nem uma cabine telefónica tínhamos para comunicar com o exterior ‒, limitava-me os contactos à simples carta, a longas epístolas amorosas escritas ou na hora de estudo ou nos momentos livres após o jantar.

Nesse ano os resultados escolares não foram afectados, embora a carga lectiva fosse enorme para o tempo de estudo disponível: por dia, duas horas e meia (uma logo de manhã, em jejum, das seis e trinta às sete e trinta e uma hora e meia ao fim da tarde, das dezoito e trinta às vinte). O número de disciplinas era brutal, porque, para além das inerentes ao curso de contabilista, juntavam-se as do correspondente ano do liceu (para termos condição de integração nas armas do Exército, sem ficarmos limitados ao Serviço de Administração Militar).

 

A apresentação formal da minha namorada aos meus companheiros de Escola e, até aos oficiais e professores, foi feita no baile de finalistas.

A notícia do meu namoro correu célere até aos ouvidos do Padre Ruy Corrêa Leal, mas ele não viu nenhuma fotografia! Isso, de certa forma, foi tranquilizante, pois não se apercebeu de como era brasa a minha namorada!

 

Com as férias de Verão o namoro aprofundou-se ‒ poupo os leitores a pormenores desnecessários ‒, deixando-me ainda mais louco quando, em Outubro, regressei à vida de internato. E esse ano era verdadeiramente trabalhoso. De memória sou capaz de repetir os nomes das disciplinas: Contabilidade, Cálculo Financeiro, Matérias-primas, Direito Comercial, Direito Civil, Inglês, Francês, Física, Química, Matemática, Filosofia, Organização Política e Administrativa da Nação, Geografia e História (creio não ter esquecido nenhuma, porque, no ano seguinte, às contabilidades juntavam-se as cadeiras em falta da alínea f) do liceu).

Em rigor, estudava na hora da manhã e no tempo de estudo da tarde escrevia longas cartas apaixonadas para a mulher da minha vida.

Pouco antes do final do ano teve lugar o baile de finalistas (1959/60) e, novamente, fiz-me acompanhar de namorada e mãe da mesma. Mas, desta vez, a fotografia foi vista pelo padre capelão e fui excomungado (já tinha tido lugar um certo desaguisado entre nós os dois).

Excomungado e reprovado foi o que aconteceu no final do terceiro período! O aluno suficiente e bem-comportado caía redondamente do pedestal! Deixei de ser vice-presidente da mesa da Conferência de São Vicente de Paulo e passei a soldado raso!

 

Mas, como um mal nunca vem só, em Setembro, o namoro acabou-se!

E compreende-se a razão… Já empregada e a trabalhar, mais um ano de distância do sonhado casamento gera a possibilidade de descobrir defeitos no apaixonado! Além disso, bons rapazes havia-os aí aos montes!

Comecei o ano lectivo de 1960/61, aquele que ia ser o último de Pupilos, desfeito e, em simultâneo, renovado. Reestruturei o meu futuro.