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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

04.10.20

Fases da minha vida ‒ 69

(A viagem de regresso)


Luís Alves de Fraga

 

No dia 18 de Maio de 1975 eu, o meu camarada Mário Cotovio e muitos mais militares embarcámos no Boeing 707 da Força Aérea e regressámos a Portugal, sem que antes fizéssemos escala em Luanda, para iniciar a viagem até Lisboa durante a noite com chegada às primeiras horas da madrugada. Nessa data, faltava um mês e uma semana para ser proclamada a independência. No aquartelamento do batalhão ficou somente a companhia que deveria seguir para Lourenço Marques para as honras militares e proceder à escolta dos últimos portugueses com cargos políticos e administrativos.

 

O avião vinha carregado com as nossas bagagens e com tudo o mais que foi preciso trazer à última hora.

Em Luanda estava outro Boeing da TAP, que transportava mais tropa de regresso. Íamos viajar na esteira dele, pois chegaríamos a Lisboa com intervalo de poucos minutos.

Na capital de Angola, daquilo que nos foi dado ver, vivia-se um clima de guerra civil. Por lá, as coisas estavam muito piores do que em Moçambique.

Estabelecendo comparações, poder-se-á dizer que a descolonização deste território foi completamente pacífica quando se olha para o que aconteceu em Angola.

 

Confesso, na viagem, em especial quando as luzes foram quase todas desligadas para os passageiros dormirem, assaltaram-me diversos pensamentos contraditórios.

Por um lado, sentia-me feliz por regressar a Portugal. Tinha saudades da minha família toda, mas, por outro, invadia-me a certeza de não mais voltar a Moçambique, onde nascera a minha filha mais velha e onde vivera tantas e tão variadas emoções; tinha como adquirida a convicção de que as belas cidades deixadas naquele território iriam degradar-se sem cuidado nem cautela, por falta de quadros técnicos suficientes e capazes de perceber como se conservavam edifícios, esgotos, estradas e ruas. Aliás, a degradação resultaria do simples facto de os proprietários dos imóveis os deixarem lá, ao abandono.

Era confrangedora a incapacidade dos elementos da FRELIMO quanto à administração e gestão públicas. Eles estariam mais tranquilos se os poderes coloniais tivessem, ao longo dos anos, criado uma elite negra suficiente para assumir cargos de média e superior categoria dentro do aparelho governativo. Mas nada disso aconteceu. Os negros nunca ascenderam profissionalmente, porque esses cargos médios e superiores estiveram sempre reservados para brancos europeus ou já nascidos em Moçambique. Com algum egoísmo, recordo que, a certa altura, pensei: «Foi a FRELIMO quem ganhou e tinha obrigação de se ter, ao longo dos anos, preparado para a tomada do poder… Se o não fez, não somos nós os responsáveis!» Assim afastei a carga de culpa que estava a transportar.

 

Ao deixar para trás Moçambique e os seus problemas, veio-me à cabeça a situação em Portugal. Senti que ia ser um choque para o qual não estava preparado. As notícias davam-me indicadores que desconhecia, pois uma coisa é viver os acontecimentos dia após dia e outra é cair no meio do turbilhão sem possuir a experiência do que se estava a passar. Nunca fui um extremista em política e creio que em coisa nenhuma. Ao procurar equilíbrios não faço concessões, contudo, busco compreender razões de um lado e de outro para justificar a minha posição.

Foi com estes pensamentos que adormeci no Boeing 707 que me trazia para Lisboa, para a Revolução dos Cravos, que, entretanto, já havia passado pelo 11 de Março e a nacionalização da banca e estava no auge da governação do coronel Vasco Gonçalves.

 

Acordei de um sono mal dormido quando iniciávamos a aproximação ao aeroporto de Lisboa. O sol começava a despontar.

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