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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

02.10.20

Fases da minha vida – 68

(A debandada e o retorno)


Luís Alves de Fraga

 

Como já referi, havia uma imensa diferença entre a cidade da Beira dos últimos meses do ano de 1974 para os primeiros meses de 1975. Entre a população europeia, a vida nocturna das sextas-feiras e dos sábados, a alegria descontraída de outrora havia caído significativamente. As praias, ao domingo de manhã, já começavam a estar desertas.

Aliás, devo referir, voltando atrás no tempo, a repercussão que tiveram na Beira os acontecimentos de Lourenço Marques, nos dias 7 e seguintes de Setembro de 1974.

 

Em Lusaka, uma delegação portuguesa, incluindo ministros e oficiais do MFA, contrariando o que estava inscrito no programa do Movimento, estava preparada para assinar, com Samora Machel em representação da FRELIMO, o documento que garantia a entrega de Moçambique àquela força política, tomando-a como única representante dos interesses da, ainda, colónia.

É necessário, para perceber o acto, aparentemente descabelado e incongruente dos representantes nacionais, contextualizar a situação.

Em Portugal, a desordem e a desobediência no meio castrense eram quase totais. A população não aceitava, de forma alguma, que seguisse para África um só soldado e, muito menos, se fosse para combater. Na Força Aérea ‒ sou testemunha do facto ‒ a resistência para marchar um oficial com destino a substituir outro, que já havia chegado ao termo da comissão, era imensa. A revolução galgara as barreiras dos revolucionários.

Em Moçambique, como já referi, o contingente militar negro, natural da colónia, fugia, desertava e queria fazer esquecer que havia estado ao serviço da máquina de guerra contra a FRELIMO, porque a gente anónima do povo anónimo percebeu, muito antes de todos nós, a inevitabilidade de ceder perante os guerrilheiros, percebeu de que lado estava a legitimidade.

Neste contexto, era impossível impor à FRELIMO quaisquer condições para protelar a negociação. Não se negoceia sem ter força e, realmente, quem tinha força era a FRELIMO e os negociadores poderiam, no máximo, minimizar os estragos causados pelo facto de não terem atrás de si nem Forças Armadas nem povo para os apoiar. O acordo de Lusaka foi o entendimento possível, naquele momento… Se mais tarde, maiores teriam sido as exigências da FRELIMO e menores as capacidades dos diplomatas e emissários nacionais.

Mas os europeus de Moçambique e algumas elites negras simpatizantes do regime colonial não foram capazes de fazer a análise fria da situação e perceber a desproporção de forças negociais entre a guerrilha e o Governo de Portugal. Não foram capazes de perceber isso tal como, no passado, nunca quiseram perceber a importância da guerra que corria lá no Norte e Centro do território. Os europeus de Lourenço Marques gozavam os prazeres de uma cidade africana bem concebida para lhes dar o que eles esperavam; para eles a guerra era um assunto para ser resolvido pelos militares.

 

Nesse mesmo dia 7 de Setembro, enquanto decorriam as conversações em Lusaka, na capital da colónia, provavelmente com o apoio ou simpatia do Presidente da República, general Spínola ‒ ele tentava, também alheio à realidade circundante, travar o inevitável no contexto da época ‒, estalou um movimento tido como espontâneo, cujo epicentro visível se situou junto das instalações da estação do Rádio Clube de Moçambique, a dois passos da messe de oficiais da Força Aérea. Contudo, se o epicentro estava ali, o mais grave dos acontecimentos passou-se a alguns quilómetros, lá para os lados do Alto Maé, com o ataque que os europeus armados fizeram contra negros desarmados e desesperados. Devem contar-se por milhares o número de mortos. Um verdadeiro massacre ditado pela raiva e desespero.

A situação esteve descontrolada durante três dias. Foi mandada seguir para Lourenço Marques, via aérea uma companhia de comandos mas, porque se duvidou da lealdade ao comando nacional, na cidade da Beira, foi substituída por uma companhia de pára-quedistas do BCP-31. Com dificuldade a aeronave militar aterrou na pista do aeroporto, pois os civis haviam-na pejado de bidons e veículos. Foi o comandante do Aeródromo-Base n.º 8, com o apoio de todos os oficiais, quem desimpediu a pista, afastou os civis e permitiu que o avião aterrasse. Dali seguiu a companhia do BCP-31 para a estação de rádio e, com relativa facilidade fez dispersar a população enraivecida.

Na cidade da Beira, também teve repercussões o movimento de Lourenço Marque, contudo, bem menores.

O rescaldo de Setembro já não o acompanhei por ter marchado para Nova Freixo e gozado as férias de Dezembro em Portugal. Em Fevereiro, como disse, tudo estava em vias de mudança.

 

Dois antigos alunos dos Pupilos do Exército, mais velhos do que eu, instalados num dos melhores hotéis da Beira contactaram-me para combinar um jantar juntos. Foi, no dia seguinte. Queriam saber o que eu pensava da situação. Já se haviam desfeito das boas vivendas onde habitavam, estavam a iniciar umas férias graciosas ‒ licença de longa duração (até seis meses) paga pelos empregadores aos europeus que trabalhavam nas colónias, para viajarem saindo de África ‒ que, pensavam, seriam definitivas.

Fui o honesto com eles, nem poderia deixar de sê-lo, depois de ler os primeiros discursos de Samora Machel, que estava a avançar de Norte para Sul.

Ao contrário de Joaquim Chissano, Machel era incendiário no uso da palavra. Percebia-se, sem grande esforço, que a vida e o modo de viver em Moçambique, para além de sofrer uma alteração natural, ia ser o oposto do que se podia imaginar. A revolução socialista, previa-se, seria radical.

Dei-lhes conta das minhas preocupações. Um queria ir trabalhar para a África do Sul e o outro já iniciara conversações para aceitar emprego no Brasil.

Ao primeiro sugeri-lhe o caminho do segundo. Quis saber dos meus fundamentos. Fui franco. Caindo Moçambique e Angola, a Rodésia e a África do Sul iriam atrás. Era só uma questão de tempo.

Despedimo-nos com um abraço. Fugiram para bem longe. Nunca mais nos voltámos a ver.

 

De um salto que dei a Lourenço Marques fiquei a saber que funcionários administrativos da Força Aérea, negros ou de origem indiana ou asiática, sem quaisquer ligações a Portugal, tinham requerido a vinda para Lisboa.

Na Beira estava a acontecer o mesmo. Fugir era a palavra de ordem.

As moedas de prata, vulgares nos pagamentos comuns, começaram a desaparecer. Soube que os mais capazes, nomeadamente comerciantes, estavam a juntá-las para as meter em caixas bem protegidas trazendo-as para Portugal. Não serviam para pagar nada, mas, derretidas, a prata sempre valeria alguma coisa.

Deambulando pela cidade, a pé ou no meu Fiat 600, apercebi-me de que o falso clima de nacionalidade, gerado pela política do Estado Novo, estava na origem da desolação que se via no olhar de brancos e de negros. Havia negros do povo humilde que nos olhavam como traidores ou, no mínimo, como mentirosos.

A minha lavadeira, mulher de mais de quarenta anos, chorava em silêncio, deixando cair grossas lágrimas pelo rosto com rugas, sempre que vinha entregar-me a roupa lavada e impecavelmente passada a ferro. Recebia o valor combinado e sempre mais outro tanto que lhe dava com um grande sentimento de culpa. Que seria dela sem os seus clientes europeus? As filhas, já crescidas, sabiam como sobreviver naquele mar que ameaçava tempestade, mas, e ela? A Andrina estava condenada nem sei a quê! Por muito de esquerda que quisesse eu ser, por muito que reprovasse a guerra, por muito que compreendesse a independência de Moçambique, ficava-me no peito a dor do abandono de todas as Andrinas e de todos os Fernandos, Josés, ou outros estranhos nomes de gente que acreditara na mentira e já não tinha idade, nem forças, para mudar, mesmo que só para fingir.

Assistir ao retorno nacional foi mau, mas pior foi assistir ao abandono nacional! Tive de me fechar na alegria de ver nascer um novo Estado dado ao mundo por um Portugal que semeou mundos no mundo.

 

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